2 comportamentos que SABOTAM a carreira de QUALQUER ARTISTA

Imagine-se aos vinte e poucos anos, na flor da juventude, recebendo diversas nomeações nos festivais e premiações mais importantes do mundo – incluindo o Oscar – nas categorias de melhor filme, diretor, ator, roteiro, entre outras, pelo seu trabalho de estreia.

Imagine que este mesmo filme seja considerado, várias décadas depois, uma das melhores e mais importantes obras de todos os tempos, reconhecida pelos principais críticos e cineastas do mundo todo.

Agora imagine que, mesmo com todo esse currículo impressionante, ninguém queira nunca mais trabalhar com você.

Porque você é insuportável.

COMPORTAMENTO AUTODESTRUTIVO NÚMERO 1: SER ESCROTO

Isso mesmo, senhoras e senhores, estou me referindo ao multitalentoso Orson Welles: dirigia, atuava, produzia, editava, narrava, cortava cabelo e pinto.

Se você é fanboy, favor pegar leve no hate, já que não estou falando mal da qualidade da obra dele, mas apenas alimentando uma saudável reflexão sobre temperamento.

Os mais apaixonados por cinema amam o filme Cidadão Kane, totalmente encabeçado por esse serzinho aparentemente carismático, e, ainda que sua carreira tenha caído no ostracismo cedo demais, os filmes seguintes também são de qualidade incontestável.

Até onde a lógica nos permite acreditar, todo mundo deseja trabalhar com os melhores, certo?

Então por que a simples presença de Welles causava ataques de pânico e perda do controle do esfíncter em quase toda Hollywood durante os anos 40?

Quando eu tinha 20 anos, comprei na Saraiva (que deus a tenha) um DVD duplo com o filme Cidadão Kane mais o documentário Em busca do Cidadão Kane, um material extra muito bacana repleto de depoimentos que contavam as polêmicas por trás dos bastidores.

Anos se passaram desde que assisti ao documentário pela última vez, mas ainda me lembro que um senhor dizia: “eu nunca vi o Orson Welles agredir alguém, mas ele parecia ser capaz disso a qualquer momento”, ou alguma coisa assim.

O rapaz era nervoso. Temperamental. Explosivo. Gritava, xingava, humilhava, fazia chorar. Tocava o terror no set.

Mas o pior é que isso faz brilhar o olho e salivar as beiças de um tanto de calouro de cinema. Chegam no primeiro dia de aula na faculdade cheios de marra, botando o pau na mesa, falando grosso com o operador de som e ostentando um rico repertório de palavras que não se diz num acampamento de escoteiros.

Querido, pare.

Professores de audiovisual, amarrem esses meninos e lutem para inserir uma disciplina de ética ainda no primeiro período.

No momento em que é contestado, o calouro ainda tem a pachorra de encher o peito e declamar: “não faço muita questão de ser amado, desde que o resultado do meu trabalho seja excelente”.

Lamento, mas se essa conduta sabotou até a carreira do diretor de Cidadão fucking Kane, você nem vai chegar a ter uma. E não estou duvidando que possa ser tão talentoso – ou até mais – quanto o próprio Welles, e se for esse o caso, por que não aproveitar a chance de ser uma exceção à regra?

Um plano não precisa de quase 100 tomadas como fazia o Kubrick, nem o elenco precisa ficar traumatizado e exausto como acontecia durante as gravações com o Hitchcock.

Custa nada ser legal.

Set é estressante, muita coisa depende de outras pessoas que às vezes atrasam, fazem um negócio mal feito e atrapalham.

Mas não justifica.

Ao invés de agredir, oriente. Converse. O restante da sua equipe também está sob estresse, acalme-os.

Concentre-se na resolução do problema: tenha baterias extras, pois xingar não ajuda a recarregar a câmera mais rápido; reforce os ensaios, pois gritar não ajuda o ator a se lembrar da fala; antecipe possíveis imprevistos, seja educado e nunca deixe faltar lanche.

O documentário Serei Amado Quando Morrer (disponível na Netflix) mostra Orson Welles em fim de carreira e com o rabo entre as pernas, lamentando um “pipipipipi eu num tenho dinheiro pros meus filmes”.

Me poupe, Welles. Insultou até a quinta geração de Hollywood inteira e terminou fazendo o cão sem dono porque os malvadões não quiseram mais continuar investindo no seu trabalho.

“Ah mas não importa. Eu trabalharia com ele mesmo assim, porque ele era foda, o maior de todos os tempos”.

Eu também trabalharia com ele, pernalonga de batom. Eu também sou trouxa. Eu poderia chegar e dizer: “não desista, meu herói, trabalharei contigo”.

Sabe o que ele faria? Provavelmente cuspiria no meu pé.

COMPORTAMENTO AUTODESTRUTIVO NÚMERO 2: SER PREPOTENTE

A discussão sobre “arte superior” e “arte inferior” é polêmica, pouco amigável e talvez você tenha opiniões fortes sobre o assunto. Mas não se meta nela. Você não vai ganhar nada com isso.

Um outro tipo de artista que ninguém suporta é aquele que banca o gênio incompreendido, mas que não é capaz de usar tamanha sabedoria para ensinar, explicar ou até mesmo vender o seu peixe.

Só quer saber de diminuir, constranger e humilhar os outros. Não sabe vender e quer colocar a culpa em quem não compra.

É comum que estes sejam bastante antipáticos, tenham o nariz empinado e o hábito de dizer coisas como: “nem todo mundo é capaz de entender”, ou “minha arte é sofisticada demais”.

Sente que deveria estar em Paris, que brasileiro é vulgar e não sabe apreciar “arte de verdade”, que não existe mais nada no mundo que não tenha aprendido e faz o possível para ser visto como inacessível. Sonha ser idolatrado pela elite intelectual mas reclama do fracasso de popularidade.

Autossabotagem constante é o nome.

Muita gente tolera – e até idolatra – alguns artistas mal educados, violentos, bandidos, assassinos em série e até pedófilos. Até o Charles Manson tem uma fanbase e é homenageado por algumas dúzias de sem noção.

Mas ninguém, NINGUÉM tolera um artista nojento.

Pode ser talentoso, habilidoso e realmente genial naquilo que faz, e mesmo assim é melhor evitar comprar a arte dele só pra não dar o gostinho da satisfação ao mesmo.

Se às vezes você se sente tentado/a a agir dessa maneira, lembre-se de que esse papel não condiz com a sua verdadeira personalidade. Isso acontece porque, em alguns momentos no passado, você viu outros artistas agindo exatamente igual e acreditou que era o comportamento apropriado.

O fato é que existem estereótipos positivos e negativos em todas as áreas de atuação, mas o que eu não entendo é a insistência em reproduzir os estereótipos ruins.

Quando a sua arte tem uma proposta mais culta, erudita, talvez realmente não venha a gozar de tanta popularidade (escreverei outro texto sobre isso mais pra frente) quanto a de outros trabalhos menos “sofisticados”.

Não é motivo para se frustrar, torcer o nariz para as preferências alheias, gravar vídeo xingando os brasileiros por escutarem funk e assim tentar buscar um público fora do país.

É preciso fazer uso responsável dos seus conhecimentos e bagagem cultural. Arte não é uma corrida. Não é alimento para o ego. É expressão, comunicação, formação de opinião, sensibilidade, visão de mundo, lazer, trabalho. É uma contribuição para o mundo.

Quem faz questão de humilhar os outros não deveria estar no ramo das artes.

Intimidadores sempre acabam sozinhos.

E a verdade é que existe sim uma demanda expressiva para esse tipo de arte. Atrai menos público do que aquilo que a maioria gosta? Com certeza.

Lembre-se que aqui todo mundo é sofrido. Uma galera numerosa acorda às 5 da manhã, encara 2 horas de ônibus lotado pra chegar num trabalho de bosta e ouvir humilhação de um chefe sem educação, pra no fim do mês ganhar uma merreca e ver o saldo continuar no negativo.

A mente precisa descansar. Às vezes uma comédia pastelão ou um reality show são mais bem vindos que o seu filme experimental.

E você sabe que isso não é errado, quando conhece a realidade dos seus compatriotas.

Mas o seu público está por aí. É preciso continuar procurando. Só pare quando encontrar.

Como NÃO vender sua arte

Se tem um tipo de história que prende, encanta e inspira muitas pessoas por todo mundo, é a história de

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