Ser erudito tem preço – e você pode estar pagando caro

Desde os tempos de escola, ainda no ensino fundamental, somos apresentados aos clássicos da literatura e aprendemos a respeitar a autoridade dos mesmos como tal. São vários títulos, como Os Miseráveis, Odisséia, Dom Quixote, Os Sertões, Os Lusíadas… Gente grande, só pra se ter uma ideia.

E ninguém se atreve a dizer que obras como essas não têm qualidade – na verdade até tem quem o diga, mas a gente chama de maluco –, porém, quando as lemos, temos muita dificuldade. A verdade é que poucos são os estudantes brasileiros que terminam o ensino médio apaixonados por literatura ou que aprenderam a cultivar o hábito de ler por hobby.

Como eu não tenho quinhentos anos de idade e, consequentemente, não tive tempo para ler todos os clássicos, vou me referir somente àquilo que conheço, portanto o que eu disser aqui não vale como regra.

Os livros citados acima são difíceis de ler principalmente por causa do vocabulário rebuscado e rico em palavras e expressões pouco ou nada cotidianas, além das técnicas de condução da história serem elaboradas com maior rigor.

No momento em que escrevo esse texto, tenho a informação de que a população brasileira é composta por aproximadamente 212 milhões de pessoas, mas eu não sei exatamente quantas delas são analfabetas – funcionais e não funcionais – ou quantas não terminaram o ensino primário.

Minha única certeza é que a porcentagem é alta e os números são expressivos, e isso significa que, se você tem a intenção de escrever como James Joyce, o seu público será muito restrito independentemente da sua habilidade em divulgar seu produto.

Quer dizer que você precisa mudar o seu jeito de fazer arte, abrir mão do estilo com o qual você se identifica e parar de praticar aquilo que acredita e gosta?

Não. De modo algum.

Mas é preciso estar ciente da impopularidade à qual você estará sujeito e não ficar botando a culpa nas pessoas, pois não será a sua obra que mudará certos hábitos, ou no governo, afinal sempre houveram artistas de sucesso apesar das inúmeras circunstâncias desfavoráveis.

O mesmo vale para música, quando você se senta em frente ao piano para tocar Chopin, ou para a pintura, quando a sua tela não retrata uma cesta de frutas.

Sejamos realistas, o concerto da orquestra sinfônica nunca estará mais cheio que um show de sertanejo universitário ou um baile funk – e pelo amor de Mozart, não poste vídeos dando chilique por causa disso enquanto promete se mudar de país –, assim como os quadros mais abstratos serão os menos apreciados num museu.

Quanto mais teoria for preciso estudar, quanto mais técnicas for preciso aperfeiçoar, quanto mais for preciso explicar para os outros que porra é aquilo que você tá fazendo, enfim, quanto mais erudita for sua arte, mais você estará se afastando de impactar um público de 212 milhões de pessoas.

Sabendo disso, como é possível me tornar um artista bem sucedido sem precisar mudar meu estilo?

Entenda que toda arte que exige um estudo reforçado, uma técnica difícil e um conceito pouco objetivo é direcionada à quem entende do assunto. Em outras palavras, eruditos se comunicam com especialistas.

Quem mais dedica seu tempo ao estudo dos clássicos é a elite intelectual. São os professores de literatura, música e artes visuais. São os estudantes universitários.

Um exemplo muito interessante desse artista no cinema é o Glauber Rocha. Um dos principais nomes do movimento conhecido por Cinema Novo durante a década de 60 no Brasil, Glauber dizia ter o objetivo de revolucionar a identidade cultural do povo brasileiro, de modo que sua expressão representasse as massas, gente comum e pobre. O discurso sempre foi bastante inclusivo e anti-elitista, e ele espumava contra as chanchadas e o entretenimento de má qualidade (palavras dele) que predominava nas salas de cinema e eram sucesso de público.

Acontece que ele não era um sujeito nada humilde, tinha mania de grandeza, dava carteirada de intelectual, tentava sabotar a carreira de outros cineastas que não pertenciam ao seu círculo, e a verdade é que ele foi um fracasso completo ao tentar se comunicar com aquele povo que acreditava estar representando através de sua arte.

Onde foi que ele vendeu seu peixe? Na França, na Itália, na Espanha…

O júri do festival de Cannes se deleitou com a visão daqueles jovens de classe média (pois tinham grana para passar meses viajando pelo exterior) sobre a situação de miséria em que muitos brasileiros viviam.

Agora me diz se alguém com fome entende Terra em Transe. Me diz se alguém que trabalhou na lavoura mais de dez horas num dia compreendia a proposta de linguagem narrativa em O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro.

Os filmes que vieram depois então, ninguém nem ouviu falar.

O povão brasileiro não tinha a menor ideia de quem era Glauber Rocha e não estava interessado em assistir Deus e o Diabo na Terra do Sol até o fim. Queriam dar risadas com uma comédia pastelão, de preferência erótica. Queriam assistir novelas. Queriam ver o Pelé e o Garrincha.

Os artistas do Cinema Novo não estavam representando de verdade a fome do brasileiro, mas sim aquilo que eles – e os europeus – acreditavam que fosse.

Somente universitários e professores ainda falam sobre o Cinema Novo nos dias atuais. A elite intelectual.

Se você quer fazer cinema experimental, tem todo o meu apoio. É bacana de verdade. Mas entenda que seu filme não vai lotar uma sessão no cinemark.

Todos os movimentos chamados vanguardistas enfrentaram resistência por parte do público acostumado com as narrativas convencionais, e tudo bem acreditar que as pessoas deveriam conhecer mais as diferentes formas de expressão. Eu também acho isso.

Mas dá pra competir com a Disney? Com a Globo? Com a Netflix?

Spoiler: você vai fracassar se tentar.

É inútil querer mudar os hábitos da maioria da população.

Como eu já escrevi semanas atrás, seu público está por aí em algum lugar. Se a sua arte é erudita, culta, experimental, vanguardista, foque nos universitários. Não muito nos professores, que estão mais apegados às referências de sempre, mas nos estudantes.

Você pode acabar se tornando uma fonte de inspiração.

Não deixe de tentar divulgar sua arte no exterior, principalmente se você tiver mais referências estrangeiras do que brasileiras, afinal o Brasil definitivamente não é um exemplo de investimento no setor de cultura nem incentivador de produção artística.

Em outras palavras, não se desanime, a sua arte vai sobreviver. Mas só a qualidade não basta. Você ainda tem um trabalho de administração de marketing pesado pela frente.

Mãos à obra.

Veja também:

Feito é melhor do que perfeito?

Definitivamente é melhor do que não feito. Estude e pratique incansavelmente para que você aperfeiçoe suas habilidades e amplie seu

2 Comentários

  • Sinto que você está caindo em uma armadilha, autor(a) deste texto. Por um motivo: creio que somos a todo tempo levados a acreditar que existe “alta cultura” e uma “baixa cultura”, visto que isso reflete em parte as divisões de classe que existem em nossa sociedade (assim como os outros aspectos contraditórios que existem nessas divisões, como as raciais, sexuais, etc.). Vim comentar aqui pois é a enésima vez que entro em contato com este discurso, principalmente relacionado ao Glauber e o cinema novo, porém vamos por partes. Pessoalmente, nunca entrei em contato com os clássicos da literatura no meu ensino fundamental, os que li foram mais por influência externa de familiares ou pela minha própria curiosidade de sair do óbvio que é vendido a nós quando mais jovens e que naturalizamos (que existe uma literatura infanto juvenil, que um jovem necessariamente não vai gostar da literatura brasileira, como Machado por exemplo). Me irrita muito este pensamento que naturaliza este tipo de “segregação intelectual”, como se só alguns pudessem ler e entrar em contato com certas teorias, esse mito do “povo simples”. O povo brasileiro não é simples nada, creio que nenhum neste planeta seja, é tão complexo quanto todo o mundo, cheio de contradições como qualquer sociedade de qualquer tempo.
    A própria cultura cineclubista foi perseguida pela ditadura, é possível encontrar dossiês sobre eles no arquivo nacional no fundo do Serviço Nacional de Inteligência (órgão de inteligência da ditadura militar, de certa forma antecessora da ABIN), afirmando o perigo que eles representavam pela mobilização que conseguiam causar, realizado junto as esquerdas mais radicais, estas sempre sendo perseguidas, junto a repressão que existia para com a população. Pensamos muito em termos comerciais, que os filmes não tinham público (o que é difícil afirmar, pois temos poucos dados sobre a bilheteria da época), e esquecemos destas exibições que ocorriam em paralelo.
    Principalmente quando tu fala sobre Glauber, sinto que existe um processo de demonização que surge em algum momento antes de sua morte e perdura até hoje. Glauber entendeu o significado da praxis: prática e teoria andam de mãos dadas. Realizou cineclubes no interior da Bahia quando o cinema ainda era pouco disseminado fora do sudeste, exibiu filmes não só para universitários, como também para trabalhadores, camponeses, e outros que tivessem interesse, era um verdadeiro agitador cultural. Escrevia critica no jornal e falava no rádio, despertava o interesse em filmes que não seriam exatamente os óbvios. É certo que ele se leva a extremos que, pessoalmente, discordo, como a execração da chanchada, do INCE (Instituto Nacional de Cinema, orgão ligado ao MEC responsável pela produção de filmes educativos que seriam exibidos em instituições de ensino), e revisitá-lo é sempre interessante. Se sai do Brasil nos anos 70, certamente não foi por vontade própria, pois a perseguição que sofre pela ditadura é mais que conhecida. Mas diferente do que se acredita, não fica apenas tomando cafézinho em Paris: vai a Cuba, auxilia na construção de um país devastado pelo imperialismo (chega a realizar um filme lá, nunca finalizado), viaja pela África para observar o processo político que se formava na época. Glauber poderia ser tudo, mas elitista é um adjetivo preguiçoso que parte de alguns acadêmicos que não buscam revelar a história toda seja por preguiça, seja por mal caráter mesmo. Glauber reconheceu o caráter danoso destes festivais na Europa, que a época tornaram-se justamente grandes vitrines de marketing (até hoje são). É certo que seu ataque a determinados cineastas é, para mim, infundado (como Paulo Saraceni, Nelson Pereira, Rogério Sganzerla, etc), mas ignorar toda a sua teoria, obra e trabalho porque “é dificil” me soa muito como desculpa, visto que escuto isso muito mais por parte destes intelectuais/universitários que você diz ser o “público alvo” destes filmes que por parte de pessoas que vem de fora destes círculos. Vejo que é tudo artimanha para afastar ainda mais a população destas obras, “””protegê-las””” de pensar demais, de observar a totalidade e as contradições que não estão tão a superfície. É certo também que existem aqueles que lutam para manter esse estado das coisas, e me parece que estes se encaixam um pouco no que tu afirmas no artigo
    Não escrevi isso como ataque ao autor deste texto, apenas creio que já passou da hora de naturalizarmos essas ideias de “alta e baixa cultura” e passemos a pensar o que é a cultura de fato e como ela se insere nesta estrutura maldita que nos encontramos e que trabalhamos para transformar de fato.

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    • Boa tarde, Helio!

      Primeiramente, muito obrigado pela contribuição. A participação ativa dos leitores é muito importante e busco incentivá-la cada vez mais.

      Vamos por partes: a razão da minha omissão a respeito dos conceitos de “alta cultura” e “baixa cultura” é a minha pouca bagagem teórica. São várias décadas de debates bastante acalorados e que não necessariamente nos entregam um consenso. Para abranger a profundidade de tanto conhecimento já produzido sobre o tema, dedica-se uma carreira acadêmica pela vida inteira. Destoa um tanto da proposta e do estilo de comunicação do site, além da necessidade de evitar ser pedante.

      Acho bacana que traga sua experiência pessoal com os clássicos da literatura, por isso falarei um pouco sobre a minha também: assim como você, tive maior interesse pelos mesmos somente após me sentir mais maduro e preparado, tanto em questão de hábito de leitura quanto experiências de vida. Mas acontece que os mesmos títulos que hoje me despertam tal curiosidade me foram apresentados aos 14, 15 anos, na escola. E eu torcia o nariz para todos. Não condizia com a minha capacidade, com a minha realidade, e eu ainda nem tinha vivência o bastante para entender a complexidade de todas aquelas filosofias de vida. E nos anos em que fiz estágio em docência nos ensinos fundamental e médio, pude observar que a experiência se repetia. Aos leitores adolescentes interessava Harry Potter, Percy Jackson e Crepúsculo, e não O Auto da Barca do Inferno ou Memórias de um Sargento de Milícias – cujas leituras eram obrigatórias.

      Mas acredito que é muito simplista nos apoiarmos apenas em nossas experiências pessoais. Sabemos que existem escolas sem banheiro, sem giz, sem mesa, sem professor. Isso mal forma pessoas alfabetizadas, que dirá leitores que cultuam os clássicos.

      Não se trata, portanto, de naturalizar a segregação intelectual. Trata-se de encará-la como um fato. Eu também não gosto que a realidade seja essa. Com luta incessante, transformações sempre são possíveis, mas quantas décadas isso pode levar? Ou quantos séculos? Quem me dera as obras mais eruditas tivessem a mesma chance na apreciação da maioria, mas sendo realista eu não penso que estarei vivo no dia que isso acontecer. E observe que o termo “povo simples” jamais foi utilizado nesse texto. Não condiz com o conteúdo aqui apresentado, por isso não vamos debatê-lo como se fizesse parte dos meus princípios – até porque nesse aspecto eu concordo contigo, dificilmente encontraremos povo mais complexo no mundo.

      Sobre a cultura cineclubista: não nego nenhum dos fatos históricos à respeito das perseguições, exílios, prisões, torturas e assassinatos. Já morei em capital, frequentei sessões de cineclubes, tenho frequentado outras online em cidades onde nunca pisei, e é sempre o mesmo: cineclubes são movimentados pela classe média, por universitários, por cinéfilos conhecedores dos clássicos mundiais e dos movimentos de vanguarda. Há sessões gratuitas em salas de universidades públicas, sessões ao preço de um real em cinematecas, e só vemos a classe média – em sua maioria universitária – frequentando esses espaços. O nicho é restrito. Cineclubes onde a maioria que frequenta não é classe média, não são a regra e sim a exceção.

      Não há “demonização” do Glauber Rocha, foi apenas sentimento mesmo. Respeito e admiro alguns de seus filmes, a importância de sua liderança no Cinema Novo, a relevância de sua obra para a cinematografia nacional e principalmente suas boas intenções. Outras atitudes eu condeno. Normal. Todo ser humano é assim, com defeitos e qualidades. Faz parte das suas boas intenções toda a agitação cultural que promoveu, toda a visibilidade que alcançou e a mobilização que TENTOU. Realizou cineclubes fora do círculo universitário, mas foi neste que o mesmo sobreviveu. Fez o possível para entrar na boca do povo, mas não ganhou sobrevida lá. Por não falar a mesma língua.

      E sim, o diretor foi exilado nos anos 70, mas não era a isso que me referia no texto. Antes de ser notado pela censura dos militares, passava meses na Europa – o que exige recurso – acompanhando festivais e se promovendo. Não que isso seja condenável, mas reflete a condição financeira de quem nunca sentiu a pobreza na própria pele. Mesmo indo a Cuba e viajando pela África, foi mais reconhecido e respeitado na França. Falava a língua do júri de Cannes, que não era somente o francês, mas principalmente a língua da arte erudita que seduz os intelectuais. Agora você dizer que ele reconheceu o caráter danoso dos festivais… vou ter que discordar. Nesse caso eu já penso que você está enxergando herói onde nunca houve. Ele só sentava a lenha quando perdia. Se vencesse, elogiava, agradecia, sorria. Aquele famoso vídeo dele espumando em italiano, sinto muito, foi pura dor de cotovelo.

      Comentar essas passagens da história da vida do cineasta não significa ignorar sua teoria e trabalho. Não sejamos extremos. Repito: respeito e admiro quase todos seus filmes. Mas não posso dizer que sua obra foi bem sucedida em se comunicar com as massas populares. Não posso dizer que ele foi esse mártir.

      E sobre uma suposta intenção de intelectuais/universitários em “proteger” a população de pensar demais, reforço: quem me dera que mais de duzentos milhões de brasileiros preferissem assistir a um filme do Glauber do que uma novela. Eu diria que é o contrário, pois quando vejo estudantes e professores dos cursos de humanas falando sobre pobreza, fome, desigualdade social, inacessibilidade, entre outros problemas, vejo as boas intenções andando de mãos dadas com um fracasso de comunicação, uma vez que os simpósios e seminários onde apresentam esses trabalhos ostentando Foucault são frequentados somente por outros universitários.

      Esse diálogo entre arte erudita e as grandes massas não existe. Isso é um fato. O que eu quero ou deixo de querer é irrelevante diante de um fato.

      E o texto não se trata de mim, se pratico ou não preciosismo acadêmico, se tenho ou não a intenção de manter a população longe das obras mais críticas e que estimulam o pensamento transformador (muito cuidado com esse tipo de conclusão extrema a partir de tão pouca informação). Vamos focar em “para quem” é esse texto: artistas. Quero que artistas observem o que lota as salas de cinema, de teatro, os concertos musicais, as galerias e as prateleiras das livrarias. São números. É quantidade. E a discussão é sobre como tornar uma carreira sustentável. Não significa que eu concorde com uma segregação intelectual, isso é colocar as cartas na mesa e propor uma análise do jogo. Caso a intenção seja manter o foco fora do círculo não especializado em arte erudita, tudo bem, acho nobre. Tentar é nobre.

      Mas se eu perguntar sobre os resultados, já saberei a resposta. E quando alguém seguir esse caminho e me apresentar resultados diferentes, será uma exceção à regra. Pelo menos nas próximas décadas, o que é muito tempo de vida e as contas não esperam.

      Mais uma vez, obrigado por interagir e aquecer a discussão.
      Um abraço,
      Borges da Veiga

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