Como NÃO ser um crítico

Como bom fã de Liga da Justiça que sou desde criança, fui assistir ao filme de Zack Snyder no cinema em 2017, antes de ser lançado o corte do diretor. Tinha achado Batman versus Superman um fiasco lamentável, porém decidi dar uma chance, uma vez que nutria memórias afetivas por aqueles heróis que fizeram parte da minha infância: gostava de assistir aos desenhos na televisão, tinha brinquedos, revistas em quadrinhos, camiseta e também havia visto alguns dos filmes mais antigos.

A expectativa era enorme. A simples ideia de que seria lançado um filme inédito da Liga da Justiça soava como um evento histórico no cinema.

Mas como vocês sabem, não foi bem assim.

Tanto na opinião do público quanto da crítica, o fracasso foi absoluto, e, ainda que os números alcançados pela bilheteria tenham sido um dos maiores daquele ano, acredito que o filme perdeu a grande oportunidade de superar todos os recordes e ser o mais lucrativo de todos os tempos.

Tinha de tudo para dar certo, porém o boca a boca foi implacável e nem o investimento pesado em marketing foi capaz de levar mais pessoas às salas de cinema e melhorar os lucros.

Mas uma coisa que me chamou a atenção na época foi a crueldade desrespeitosa e anti-ética da parte de muitos críticos, que chegavam a se referir ao filme como “lixo”.

Sim, eu concordo cem por cento que o resultado final entregou uma grande decepção, porém acredito que certas condutas mancham e banalizam o ofício da crítica, que é sim muito importante para o meio artístico como um todo, principalmente quando se escreve para um jornal ou site de grande alcance.

Naquela época eu estava no segundo ano da faculdade de cinema e sabia o quão estressante e trabalhoso era estar em um set de filmagem. Isso porque eu só participei de trabalhos acadêmicos e uns poucos curtas fora da universidade.

Nunca estive em uma superprodução, mas basta ficar até o fim dos créditos para ver quantas pessoas deram duro para que o filme fosse concluído e chegasse às salas de cinema de todo o mundo (ou quase).

Para no fim das contas ser chamado de lixo, como se não houvesse o menor valor para todos os profissionais envolvidos.

Também foi na faculdade que eu aprendi sobre diferentes tipos de críticas e as intenções por trás de cada uma delas. A mais conhecida de todas é aquela dedicada ao público que ainda não assistiu: você abre o jornal ou acessa o site e lê sobre o filme que está em cartaz no cinema ou no catálogo de alguma plataforma de streaming, deparando-se com a opinião de um profissional – que muitas vezes é um/a autor/a com grande bagagem de filmes assistidos, mas sem experiência em set – que lhe dirá se vale a pena ou não gastar o seu dinheiro e tempo assistindo.

Geralmente, esses textos são rasos e bastante vagos sobre os motivos do filme em questão ser bom ou ruim, sem abordar muitos outros pontos importantes além do roteiro ou, quando muito, da fotografia.

Até que faz sentido, pois a grande maioria do público não é especialista em edição, mixagem de som ou direção de arte, portanto não é tão produtivo se alongar nessas questões.

O foco do texto é mais comercial e muitas vezes tende a ser apelativo, o que pode até provocar traumas em muitos profissionais de arte em geral, pois, após uma apresentação de teatro, dança, música e ou exposição, também se anseia para ler a opinião pública no dia seguinte.

E claro, nem sempre artistas acertam, mas quando são chamados de lixo em praça pública, não se sentem muito estimulados a tentar mais uma vez e buscar crescer na profissão.

É triste ver como às vezes alguns críticos amargurados e prepotentes destroem sonhos.

Um outro ponto negativo da crítica comercial, na minha opinião, mesmo quando a mesma não viola nenhum senso de ética, é que ela tenta antecipar ao leitor uma experiência muito particular. E não, não estou falando de dar spoilers.

Acontece que a interação entre espectador e obra é sim muito pessoal. Por isso evito saber as opiniões alheias antes de assistir um filme ou uma apresentação, pois acredito que assim a minha experiência será mais sincera, sem sentir que devo achar que é bom ou ruim com base no gosto de outras pessoas.

Sendo assim, me vejo muito mais inclinado à aceitar um outro tipo de crítica: aquela com o propósito de prolongar essa experiência. Nesse caso, tudo bem a crítica ser negativa (desde que não insulte até a quinta geração dos artistas envolvidos) ou dar spoilers, mas é importante que ela deixe bem claro o porquê, ou que consiga explicar exatamente o que torna a arte abordada uma obra de qualidade.

Este tipo de crítica pode se apropriar de elementos da análise técnica e sensível, abranger questões filosóficas, históricas, ou sociais, além de permitir uma liberdade mais criativa na elaboração do texto.

Não se trata de mera expressão de opinião, mas sim de fundamentos consistentes que legitimam o/a autor/a enquanto autoridade naquele assunto.

São textos muito mais interessantes, e quando digo que os mesmos prolongam a experiência da sua interação com a obra, significa que você pode conhecer um outro ponto de vista sobre o qual não havia pensado antes, o que te fará perceber que a mesma pode ser muito mais rica e englobar uma quantidade muito maior de camadas que talvez tenham passado despercebidas.

E nem precisam ser teses complicadas que esmiúçam o quadro a quadro de um filme, podem ser textos ensaísticos bem dinâmicos de quatro ou cinco páginas.

Ao contrário do que acreditam os adeptos à crítica destrutiva e sádica, a arte precisa ser cada vez mais incentivada.

Artistas novos vão errar em algum momento.

Os bons críticos dirão, direta ou indiretamente, como podem melhorar, enquanto os críticos ruins não serão capazes de sustentar seus argumentos para além do próprio gosto pessoal e saudosismo, e dirão que eles devem procurar outra profissão.

Mesmo quando exercida de forma amadora, a arte ainda é essencial para o desenvolvimento de muitas das nossas habilidades cognitivas e visão de mundo. A crítica amadora, por outro lado, não faz a menor falta. Pelo contrário, estaríamos melhores sem ela.

Mas todo mundo pode continuar aprendendo e melhorando, se tiver vontade. E é mais fácil ter vontade quando não sentimos que todos estão contra nós.

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