Arquivos Mensais: maio 2021

Como NÃO vender sua arte

Se tem um tipo de história que prende, encanta e inspira muitas pessoas por todo mundo, é a história de ascensão: já li e assisti muitos relatos biográficos de artistas, líderes mundiais ou empreendedores, que começaram do zero sem ter onde cair morto e nem um puto encardido no bolso, mas tiveram um final feliz, nadando em rios de dinheiro e substituindo as obturações por ouro.

Em algum momento, na maioria dessas histórias, há uma parte que diz: “eu saía batendo de porta em porta oferecendo o meu produto, ouvi muito não mas continuei de cabeça erguida”.

Soa familiar?

Pois bem, é muito bonito quando ouvimos sobre pessoas que deram a volta por cima graças à um imenso esforço, e são delas que nos lembramos quando estamos começando a tentar vender o nosso produto, independentemente do que seja. Afinal, se fulano foi capaz de vender enciclopédias na década de 80 e dar uma guinada na situação financeira apenas com trabalho duro, você acredita que também pode oferecer sua pintura, seu disco ou seu livro de porta em porta e sair vitorioso.

E o melhor: é muito mais fácil hoje em dia, já que a “porta” das pessoas pode ser as redes sociais, o que se acessa com um único e simples clique. Correto?

Sendo assim, só é preciso ter muitos seguidores e oferecer um produto de inbox em inbox, DM em DM, que as chances de vender serão muito maiores.

Correto?

Não é bem assim. Conheça duas atitudes que atrapalham suas vendas:

1 – Incomodar as pessoas no inbox

Qualquer livro, qualquer aula, qualquer texto, qualquer vídeo que tenha o propósito de ensinar marketing digital vai repetir o que todo mundo já sabe: que nos tempos atuais o consumidor tem muito mais autonomia sobre suas escolhas, uma vez que o marketing tem se tornado cada vez mais acessível graças à internet, enquanto até poucas décadas atrás as opções eram muito limitadas às propagandas na televisão, rádio, jornais, revistas, etc, etc, etc.

É bastante óbvio, mas todo profissional de marketing vai te lembrar disso.

Isso significa que a história de superação e ascensão que você leu/ouviu já é um pouco antiga e não funcionaria tão bem no século XXI. O vendedor de décadas atrás batia de porta em porta porque fazia sentido.

Em uma época sem acesso à internet, as pessoas eram muito mais inclinadas à comprar aquilo que lhes era oferecido ao invés de ir atrás do que sabiam querer ou precisar.

Eu não sei quando foi a última vez que alguém tocou o interfone da sua casa/apartamento para vender um produto (a não ser uma dupla de testemunhas de Jeová tentando vender a palavra do menino Jesus de Nazaré), mas essa prática é muito menos comum hoje em dia e acredito que ela tende a desaparecer.

Afinal, você provavelmente iria pensar: “meu filho, se eu tivesse precisando de tapete eu mesmo comprava um na Shopee.”

Em outras palavras, a vida do consumidor está muito mais simples. Sabe onde achar aquilo que quer/precisa, por isso não tem muito interesse no produto que lhe é oferecido aleatoriamente na porta de sua casa.

Então por que você vai incomodar seus seguidores na DM oferecendo sua arte?

Eles já estão vendo ofertas de smartphone em anúncio da Amazon, de tênis em anúncio da Centauro, de colchão king size em anúncio da Magazine Luiza, e lá vai você empurrar link no chat dos outros?

Essa é uma estratégia de abordagem pouco apreciada, porém muito comum, infelizmente. Através dela você não converte uma compra, você converte um ranço.

Se esse era o seu único plano, você provavelmente está um tanto confuso/a e desanimado/a nesse momento. Lamento. Mas não fique assim, continue lendo esse texto e provavelmente sairá daqui com uma ideia nova e melhor.

2 – Achar que a divulgação já acabou

Continuando com o exemplo de vendedores ambulantes: eu já completei ¼ de século morando em MG e não sei se esse tipo de vendedor é comum no seu estado/região, mas aqui temos o onipresente cara da pamonha. Não importa se você mora no bairro mais nobre da capital, no centro de uma cidade industrial, numa cidadezinha de 15 mil habitantes que ninguém nunca ouviu falar, na perifa, ou na fronteira com o Espírito Santo (amém). Aqui em Minas, o vendedor de pamonha vai passar na porta da sua casa vários dias da semana.

Às vezes ele é um sujeito simples que passa de bicicleta anunciando num agudo potente: “óia a pamonha”. E às vezes ele vem de carro de som: “olha a pamonha, tá acabando a pamonha, só tem 400, pamonha de sal, pamonha de doce, pamonha temperada, aceitamos todos os cartões de crédito e débito”. Será muito emocionante quando ele começar a vender por drone, anseio por esse dia.

Enfim, não tem como se esconder dele.

Porém, ao contrário do vendedor que oferece o produto de porta em porta, esse não toca seu interfone para tentar vender na sua casa.

Ele segue repetindo o anúncio no dia seguinte, na semana seguinte, no mês seguinte. Para sempre. Ele vai te dar tempo pra pensar: “será que eu quero uma pamonha?”, e isso é tudo que ele precisa. Se um dia sua resposta for sim, você vai até ele. Se ele vende bem no seu bairro, ele passa lá mais vezes, e se vende mal vai passar menos.

Ou seja: o consumidor precisa pensar mais no produto. E quanto mais o produto estiver em evidência, melhor.

Apesar de não ser uma boa ideia tentar o inbox por inbox, as redes sociais ainda podem ser o seu melhor meio de divulgação. Você provavelmente já sabe disso desde os anos de Orkut (que Deus o tenha), mas talvez ainda esteja cometendo alguns erros.

Por exemplo: divulgar só uma vez e nunca mais.

Você gravou um disco e lá está a foto da capa toda bonita na sua publicação do Facebook, do Twitter, do Insta, nos stories, nem o LinkedIn você perdoou. E aí, o que você faz em seguida? Acende uma vela, ajoelha e começa a rezar implorando pelas curtidas, comentários e compartilhamentos. Dá um F5. Dá outro. Dá 50 F5’s em menos de um minuto. Nada.

É nessas horas que brota o capetinha no pé do ouvido: “começa a enviar os links no inbox, evita a vergonha do flop”.

Agora eu vou fazer o anjinho e falar no seu outro ouvido: seus amigos e familiares amam você, mas isso não quer dizer que gostem da sua arte. Não são obrigados/as a gostar, muito menos a comprar. E você não tem o direito de se emputecer da vida com eles por esse motivo.

Eu sei, pode parecer algo meio cruel de se dizer, mas como anjo eu te devo a verdade.

Por isso, não peça que comprem. Peça que compartilhem. Por ser de graça, compartilhamento é mais difícil de recusar e, como já falei no primeiro texto desse blog, seu público pode não estar entre os seus contatos, mas talvez esteja nos contatos dos seus contatos.

Beleza, seu contato compartilhou. Já é hora de acender a vela?

Não.

Agora você precisa evitar o segundo erro: ficar fazendo publicação todo santo dia.

Isso é conselho de capeta.

Colher os resultados das suas divulgações pode ser um processo lento e que exige paciência, por isso não adiantar ficar floodando o feed das pessoas, isso só vai causar ranço.

Planeje.

Uma ou duas vezes por semana é uma boa frequência, mas ela precisa ser bem elaborada e regular. Nos outros dias da semana, poste conteúdos diferentes que faça com que o pessoal interaja e se engaje. Crie um relacionamento.

Dá trabalho. Mas e daí? Trabalhe.

Muito bem, cumpri o que prometi no título e você já sabe o que NÃO deve fazer, agora provavelmente está querendo me perguntar o que fazer e quais são as melhores estratégias.

Prometo me aprofundar mais nesse assunto em textos futuros, mas por enquanto ponha em prática esse hábito de divulgar seu trabalho ampla e regularmente, diversificando o conteúdo das suas publicações, sem exagero nem importunações.

Saiba reconhecer o seu público e onde encontrá-lo. Pesquise sobre os anúncios pagos e lembre-se: gasto é uma coisa, investimento é outra.

Veja também:

ANOTE NA SUA AGENDA: XI Edição “O que podemos com a arte?”

Está marcado para quarta-feira, 05/05/21, às 14h30, a XI edição do evento “O que podemos com a arte?”, seminário permanente de estética promovido pela Escola de Belas Artes da UFRJ.

Coordenado pela Professora Associada Veronica Damasceno, o seminário contará com a presença da artista visual Claudia Bakker-Doctors (doutora em Artes Visuais pela UFRJ), que apresentará o tema Arte, natureza e poesia: conto n. 6 e outros apontamentos.

Devido à pandemia, não será possível realizar o evento presencialmente, portanto o mesmo será 100% online, exibido pelo Youtube gratuitamente e emitirá certificado de participação aos presentes.

É uma excelente oportunidade para artistas e estudantes conhecerem um pouco do trabalho de Bakker-Doctors, cujas instalações, fotografias e fototextos já foram expostas em mostras no Brasil e em Portugal.

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