Você nunca mais sofrerá com bloqueio criativo depois dessa dica

Quando eu fazia faculdade de cinema, o professor de roteiro propôs uma atividade estimulante que eu já tinha ouvido falar, mas nunca tinha posto em prática até então: brainstorm (tempestade de ideias). Também é justo chamá-la de shitstorm, porque uma boa ideia é como uma moeda engolida por uma criança: você só encontra alguma coisa de valor depois que mexe muito na merda.

Assim funcionou a dinâmica: na turma inteira, com seus vinte alunos, cada um teria o prazo de uma hora para fazer brotar trinta ideias (!) enquanto ouvia uma musiquinha alternativa para ajudar a fluir a criatividade. Não precisávamos criar estruturas de roteiros completos, claro, mas apenas uma única frase que explicasse do que aquilo se tratava e que posteriormente seria desenvolvida com maior dedicação – ou apenas ignorada mesmo.

“Esse safado tá é com preguiça de dar aula”, pensariam alguns. Mas o andamento da atividade tomou rumos interessantes.

No começo era um bloqueio completo, quase um surto de pânico generalizado. Maaaas, como as ideias não precisavam ser necessariamente sacadas geniais, absolutamente qualquer coisa a nossa volta podia ser convertida num insight em potencial.

“Saqueadores invadem universidade e estudantes concentrados os ignoram”.

“Padre do balão é encontrado palestrando num evento de coaching”.

Nesse nível.

Aos poucos fui perdendo o receio de ter ideias ruins e simplesmente deixei que a imaginação fluísse, de tal modo que algumas boas ideias timidamente começaram a surgir. Ao final de uma hora, quase todos os alunos conseguiram ter as trinta ideias, e quem não teve trinta teve vinte e poucas, o que não deixa de ser um número expressivo.

Mesmo aqueles que diziam ter pouca ou nenhuma afinidade com a escrita de roteiro conseguiram. Aquela atividade me rendeu nove ideias com as quais me empolguei e me interessei por desenvolvê-las, e eu tive uma sensação de alívio imensa, pois havia encontrado uma solução para os bloqueios criativos que uma hora ou outra acabaria enfrentando.

Ah, então você está querendo me dizer que é só parar e pensar?

SIM!

Sabe qual é o erro de quem para e pensa mas não consegue ter ideias? A pressa. A impaciência. O desespero.

Enquanto você está tentando parir uma ideia por conta própria, não tem ninguém te obrigando a continuar o exercício por mais quarenta e cinco minutos. As pessoas desistem rápido e se desesperam quando começam a ter ideias ruins que aparentemente só atrapalham, mas não entendem que isso faz parte do processo.

Disseque a ideia: por que ela é ruim? Como eu poderia melhorá-la?

Aí você pensa nas suas referências e tenta se inspirar nos seus filmes, séries, livros favoritos. Pensa nos personagens, nos conflitos, nas reviravoltas.

Você simplesmente pensa. E uma boa ideia vem.

E quem fortalece suas referências soluciona o bloqueio criativo com mais facilidade, por isso é importante ler bastante.

Nas atividades seguintes, selecionamos as nossas ideias preferidas para dar corpo a elas: elaboramos sinopse, argumento, escaleta e desenvolvimento de personagens, ao mesmo tempo em que aproveitávamos sugestões dos outros colegas.

Ter ideias é fácil e todo mundo consegue com algum esforço.

E a verdade é que temos ideias em potencial todos os dias. Elas surgem em situações bastante corriqueiras e nem sempre as identificamos como tal. Por exemplo, quando você vê um motoqueiro dando grau e torce pra ele cair, ou escuta ao acaso uma conversa entre duas pessoas na fila do supermercado e tenta imaginar o contexto.

O simples ato de observar o mundo à sua volta é uma maneira extremamente eficaz de ter ideias novas, sem depender unicamente de raros insights, de momentos “eureca” ou drogas.

Ficou interessado/a? Quer fazer?

Então tira aí uma hora do seu dia, deixa o celular no silencioso ou desligado, tente ter trinta ideias e poste nos comentários dessa página – e não se preocupe com a possibilidade de alguém tentar roubar a sua, pois quem fizer o exercício vai conseguir ter a própria ideia e se empolgar tanto com ela que não vai pensar em outra coisa.

Funciona pra roteiro de filme, literatura, música, pintura, tudo.

Mas se você estiver tentando desenvolver uma história completa, com começo, meio e fim, será preciso seguir mais algumas etapas.

Agora vamos dar corpo à história estruturando melhor uma ideia.

É preciso identificar e deixar bem claro o problema, a ação e a resolução. Ou seja, o que os personagens farão para tentar alcançar seus objetivos, sejam quais forem. Vamos trabalhar isso no exemplo do padre do balão:

Problema: um padre quer sumir no mundo.

Ação: faz uma viagem usando apenas balões.

Resolução: recomeça a vida como coach em outro país.

Esse exercício pode transformar a sua perspectiva sobre aquela ideia que você escreveu mas não gostou, por achar que a mesma seria ruim ou desinteressante. A linha solitária que explica do que se trata uma história não é o mais importante, mas sim a maneira como se conta. Serão os acontecimentos que farão o leitor ou espectador gostar ou desgostar.

Nas próximas etapas, a frase única será desenvolvida até se tornar um parágrafo, que em seguida se tornará um resumo e tão logo um argumento, onde o problema, a ação e resolução serão mais bem pensados e terão suas motivações explicadas.

Mas não é disso que vou falar por enquanto, pois o mais importante é que não lhe falte bagagem para o básico.

Também é comum, quando temos uma ideia, pensarmos o seguinte: “esse filme já existe”.

Você pode achar que talvez existam histórias demais sobre campeões de boxe, mas não dá pra dizer que Rocky e Touro Indomável são iguais, por exemplo, ou que a história que você tem em mente ficará igual – a não ser que esteja pensando em cometer plágio.

Talvez o seu campeão viva em uma distopia futurista e precise se disfarçar de robô para sobreviver ao governo que quer matá-lo, e para sustentar o disfarce precisará enfrentar um robô de verdade no ringue. (Pode ficar com essa ideia pra você se quiser).

Toda ideia que, a princípio, parece ruim, pode ficar ótima durante o desenvolvimento.

Tive um bloqueio criativo durante o andamento da ideia. E agora?

Já passei por essa situação e tentei buscar algumas soluções na internet. Eis as principais sugestões: fazer algo não relacionado à criação – como dar uma volta pelo bairro, parar pra assistir um filme, soldar um toldo etc –, isolar todas as distrações – como whatsapp e instagram –, mudar o ambiente de trabalho, ouvir música ou simplesmente deixar o projeto de molho por algum tempo e retomá-lo depois.

São sugestões interessantes e que fazem sentido, mas a verdade é que processos criativos e recepção de estímulos são coisas individuais. O que funcionou pra você pode não funcionar pra mim e vice versa.

É preciso testar mais de uma solução para descobrir qual realmente condiz com o seu método e funciona de verdade pra você.

Foi em uma sessão de arteterapia – prometo que postarei sobre isso mais pra frente – que eu encontrei minha alternativa favorita: experimentar contar a mesma história utilizando outros recursos.

Durante as sessões, éramos convidados a expressar uma ideia específica através de um exercício de colagem, por exemplo, e em seguida reproduzi-la através da pintura ou escrita.

Dê à sua ideia uma nova forma de ser contada.

Você perceberá que ela pode ser muito mais rica do que acredita.

Se estiver travado/a na escrita de um livro, comece a desenhar os personagens, esboce uma história em quadrinhos. Aquela nova linguagem vai mudar sua ótica, mesmo que você talvez não desenhe bem. Até bonequinho de palito vale.

Agora com a perspectiva de quadrinista, sua criatividade terá como referências as HQs que você já leu e a história tomará novos rumos que antes não faziam parte dos seus planos.

Experimente pintar um personagem, um lugar onde a história é ambientada ou uma sequência de acontecimentos, escrever a letra de uma música que tenha relação com o enredo, escalar o elenco que atuaria numa eventual adaptação para o cinema etc.

Há muitas possibilidades.

Seguindo essas dicas, você vai no máximo ficar em dúvida sobre as várias opções de rumos que seu livro ou roteiro poderão tomar.

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