Arquivos Mensais: julho 2021

Faculdade de artes: vale a pena?

Gostaria de começar indo direto ao ponto: sim, eu recomendo fazer faculdade de artes.

Agora vamos aos prós e contras.

Há muitas profissões que ninguém pode exercer sem ter feito faculdade: médico, advogado, engenheiro, dentista, psicólogo, veterinário etc. E há outras que se pode sim exercer sem ter feito faculdade. Artista é uma delas.

Não sei como é nas principais universidades do seu estado, mas muitas costumam aplicar uma prova de habilidades específicas como forma de ingresso. Só o vestibular ou ENEM não é o bastante. Ou seja, há uma exigência de que você já entre sabendo, o que significa que não é lá que você vai aprender a desenhar, pintar, esculpir, atuar, tocar instrumento, dançar ou ser criativo/a. Isso você pode aprender sozinho ou em cursos.

Também é importante destacar que você não terá aulas de cinema com o Spielberg, por exemplo. Seus professores terão no máximo uma produtora pequena, de alcance local e com algumas conquistas de festivais medianos no currículo. Quem é realmente bem sucedido no ofício, não está dando aula – mas pode ser que tais artistas bem sucedidos talvez não sirvam para ensinar.

Então quais as vantagens?

Vantagem número 1: Referências

Numa faculdade de artes, você aprende história da arte. Vai conhecer e se aprofundar em obras das quais nunca ouviu falar, ou cujas camadas só conhecia superficialmente.

Não importa quão habilidoso/a você seja naquilo que faz, é ampliando seus conhecimentos que irá ousar, testar técnicas e conceitos diferentes. Isso te permitirá crescer e evoluir enquanto artista.

Você pode até conhecer os principais e mais importantes movimentos de ruptura e vanguarda, mas na faculdade se aprende a compreender as mentalidades por trás deles, os contextos históricos e sociais que influenciaram suas motivações, o que te torna uma pessoa mais consciente e crítica da própria realidade e contexto sociocultural.

Vantagem número 2: Conhecimento teórico

Sabia que existem movimentos de ruptura e experimentação na sua área acontecendo nesse exato momento? Não vão te ensinar isso num curso de desenho, na sua escola de teatro ou estúdio de dança.

Você pode até não concordar nem apreciar as mudanças propostas, mas precisa conhecê-las. Precisa entendê-las, pois são consequências de como a sociedade tem se relacionado com a arte em vários aspectos.

Isso exige um aprofundamento nas leituras teóricas sobre as artes. Trata-se de uma maneira de conhecer arte na perspectiva de filósofos, sociólogos, historiadores, psicólogos etc. Não é fácil, o linguajar costuma ostentar academicismo, mas é enriquecedor.

Vantagem número 3: Círculo de convivência

É bastante acolhedora a ideia de estar entre pessoas que partilham dos seus sonhos, angústias, medos e conhecimentos. Ninguém ali vai tentar te incentivar a largar essa “besteira sem futuro” e prestar um concurso público.

Além disso, você pode ler toneladas de livros sobre história e teorias da arte, mas o que potencializa de verdade o conhecimento é o debate, a troca de ideias, compreender a leitura que outras pessoas fizeram dos mesmos textos que você e aprender com a diversidade de pontos de vista. Esse é um dos grandes valores das faculdades de ciências humanas como um todo.

Conhecimento não se acumula, se troca.

E agora vamos tratar dos pontos negativos, ou não tão positivos assim.

Desvantagem número 1: Não garante uma carreira estável

Na verdade, fazer faculdade de artes não oferece é garantia nenhuma de carreira. Você não vai frequentá-la para se tornar um artista, mas sim para aprender sobre arte. Não é a mesma coisa.

Durante os quatro anos na universidade, você não necessariamente estará em contato com profissionais, e sim com acadêmicos, tanto na sala de aula quanto nos congressos, simpósios e palestras que participar.

Se o curso for de licenciatura, seu estágio no quarto ano será em uma escola e você vai dar aula. Buscar fazer contatos com profissionais artistas, que realmente fazem do ofício uma forma de sustento, será uma missão quase completamente autônoma e solitária.

Desvantagem número 2: Influências negativas

Seu círculo de convivência pode ser tanto uma vantagem quanto uma desvantagem, o que dependerá tanto das suas escolhas quanto da sorte. Na maioria das universidades, o ingresso nos cursos de artes é pouco concorrido, por isso se considera “fácil” de passar.

Consequentemente, vai haver na sua turma alguma quantidade média ou baixa de pessoas que não gostariam tanto de estar ali, outras que aos poucos vão perdendo o interesse e, no fim das contas, sobrarão poucas realmente interessadas na troca de conhecimentos e experiências.

Outro tipo de influência negativa vem daquelas pessoas que estão sempre dando desculpas e justificativas para não enfrentarem os obstáculos da carreira. Vão somente reclamar do governo. Nesse sentido, não estarão erradas, mas perderão a oportunidade de acertar quando criticarem e descartarem outras alternativas sem nem tentar.

E essa mentalidade pode acabar influenciando seus planos e te levar a cometer autossabotagem.

Também é muito importante diversificar o seu currículo: faça disciplinas como ouvinte nos cursos de administração, economia, ciências sociais, marketing, tudo aquilo que tiver relevância para o crescimento da sua carreira. Aprenda a montar estratégias de vendas, divulgação, elaborar planilhas etc. Não seja uma batata.

Desvantagem número 3: A bolha

As universidades são extremamente necessárias para a humanidade e tem sido, sem dúvida alguma, um sucesso absoluto em produção científica e de conhecimento. Porém, há de se reconhecer que, ao menos no Brasil, o ensino superior é um fracasso em se comunicar com o restante da sociedade.

Doa a quem doer.

Quem estará presente nos congressos, simpósios e palestras promovidos pela universidade? Somente universitários.

Quem lê os artigos de revistas acadêmicas, projetos de iniciação científica e extensão, TCC’s, teses e dissertações? Somente universitários.

Isso significa que os projetos e trabalhos que você desenvolver pela faculdade não terão um bom alcance – e se tiver, seus colegas e professores irão te massacrar –, afinal a porcentagem de pessoas que fazem ou já fizeram faculdade no Brasil é extremamente baixa.

A universidade é uma bolha e isso precisa mudar.

Conclusão: Não é somente na universidade que está todo o conhecimento que você precisa para ser artista. É uma opção muito enriquecedora – em termos de cultura e intelectualidade –, mas não a única. Um diploma de curso de artes só é necessário caso você queira uma cela especial (mas a melhor opção continua sendo não cometer crimes) ou dar aula de artes em escolas e universidades (para a maioria das universidades públicas, é pré-requisito ter mestrado ou doutorado para dar aula).

São pontos muito importantes a serem analisados. Avalie-os com senso de responsabilidade.

Transgressor, subversivo e polêmico: confira o booktrailer de “Furtado Quer Matar o Pai”, de Borges da Veiga

Você deve estar se perguntando: mas por que raios esse tal Furtado quer matar o próprio pai?

Acredite, ele tem muitos e bons motivos.

Furtado Quer Matar o Pai é o livro de estreia de Borges da Veiga. Sem estereótipos, sem clichês, sem fantasia. A história aborda, de forma realista, a situação de milhões de jovens brasileiros que convivem diariamente com a violência.

Nem as ruas, nem a escola e nem mesmo a própria casa são lugares seguros.

Confira o primeiro booktrailer:

Furtado Quer Matar o Pai será lançado em agosto, na Amazon, somente no formato e-book.

Durante o primeiro mês, o mesmo custará apenas R$3,00.

Não se preocupe, não vou te deixar esquecer. É só inserir o seu e-mail e você receberá uma notificação do próprio autor no dia do lançamento, avisando que já está disponível para compra. Sem spam nem chateação.


Sinopse: Julio Furtado, um estudante de 16 anos, está cansado de apanhar do pai em casa e dos valentões na escola. A urgência em mudar de vida antes que algo pior que as surras aconteça, o leva às piores decisões: vingança, tentativas de fazer justiça com as próprias mãos, maus hábitos e desafios de um emprego que detesta. Jussara, uma garota valente e com inimigos em comum, torna-se cúmplice – e amante – de Julio em suas desventuras.

Um livro 100% digital, independente, cascudo e barato que você pode ler pelo celular.

Copie seus filmes favoritos sem plagiá-los

Você já sabe que cometer plágio é crime, certo? Se não, volta pra base.

Quando penso em meus filmes favoritos, gostaria de ter sido eu a escrevê-los, dirigi-los e ficar com todos os merecidíssimos prêmios. Mais do que apenas apreciar, sinto uma pontada de inveja destes autores pela inteligência, sagacidade e criatividade, e não é aquela inveja que te faz querer destruir uma pessoa para tomar o lugar dela, mas sim aquela que te inspira a tentar fazer algo tão bom quanto.

Como não tenho uma máquina do tempo para realizar tal façanha antes dos meus diretores favoritos, é melhor deixar esse devaneio de lado e começar a criar minhas próprias histórias. Que sejam originais, mas semelhantes às obras que admiro em termos de qualidade.

Há uma forma interessante de copiar seus filmes favoritos sem necessariamente plagiá-los. E já adianto que não é fácil nem rápido, talvez seja até mais difícil que escrever toda a sua obra sem nenhuma inspiração consciente, mas é bastante provável que você se sinta satisfeito/a com o resultado final.

Não precisa ter receio ou se sentir uma fraude por seguir esses passos. Stanley Kubrick e Quentin Tarantino já o fizeram. Com toda certeza, muitos outros diretores famosos e consagrados ainda o fazem.

Primeiramente, é preciso saber analisar um filme. Não necessariamente ser especialista em edição, direção de fotografia ou mixagem de som, mas tem que entender pelo menos o básico dos aspectos “técnicos”.

O que eu recomendo, antes de começar a análise, é escolher algum dos seus filmes favoritos e pensar: “por que eu gosto desse filme?”

Quais são as principais cenas que lhe vêm à mente? O que elas te fazem sentir? E por quê?

Assista ao filme uma vez, despretensiosamente, buscando somente reviver aquelas velhas emoções e o deleite que sentiu quando o fez pela primeira vez. Recorde-se de detalhes os quais você já tinha se esquecido, ou que haviam passado despercebidos.

E reassista uma segunda vez (não precisa ser imediatamente após terminar, claro), prestando atenção ao máximo de detalhes que conseguir, de modo que eles possam responder às suas perguntas. Tente perceber também as variações das suas emoções durante o filme, se há cenas em que você sente medo, aflição, euforia, tristeza etc.

Tudo isso foi planejado.

De quais personagens você gosta e por quê? Destaque os principais valores que te fazem admirá-los: coragem, sabedoria, força, humor… o que for. Analise como essas qualidades são trabalhadas durante o filme, quais são os momentos em que ele mais as coloca à prova, quais são os dilemas que enfrenta e qual a potência disso para o filme como um todo.

Parece difícil? É porque é difícil mesmo. Mas se você gosta do filme, será um esforço prazeroso.

Entender esses elementos te ajuda a aprender sobre a criação de um roteiro. Provocar emoções no seu público é consequência da qualidade das suas histórias, mas conduzi-las conscientemente é uma demonstração de habilidade. E isso você pode aprender com quem soube conduzir as suas.

Vamos usar um exemplo: Karatê Kid.

Se eu te disser que o desfecho é inspirado em clássicos do faroeste, você se surpreenderia?

Bom, quando o Sr. Miyagi vai até o Cobra Kai pedir trégua ao John Kreese, pelo menos até o dia do torneio, está propondo um duelo, no qual Daniel Larusso e Johnny Lawrence serão os dois caubóis que se enfrentarão numa luta limpa seguindo um conjunto de regras pré-determinadas.

No entanto, apesar do desfecho seguir o mesmo princípio, alguém poderia afirmar que Karatê Kid é plágio de algum filme de faroeste? Não. Nem no gênero ele se enquadra.

Quanto mais características humanas são trabalhadas durante a construção de um personagem, maiores são as possibilidades para se explorar as mesmas qualidades e defeitos em novas histórias.

O próprio Daniel Larusso, por exemplo, é um ser humano com vários defeitos: não somente por ser um completo desastre em karatê no começo do filme, mas também pela sua impaciência, seus ciúmes, sua pressa, ou até mesmo a tentação que sente em aprender a lutar do jeito agressivo como os alunos do Cobra Kai.

Ou seja, é um protótipo de personagem capaz de sustentar vários tipos de histórias diferentes. Caso Johnny Lawrence nunca tivesse cruzado seu caminho e chutado seu traseiro, aprender karatê não seria uma prioridade para Daniel e sua trajetória poderia seguir os rumos de um romance com altos e baixos, um drama familiar, ou quem sabe uma ficção científica.

Agora vamos inverter os papéis: um jovem apaixonado tenta reatar com a ex-namorada, mas vê ela se interessar por outro. Ele decide sabotar o rival à todo custo, é superado e descobre que o homem que mais admira é na verdade um monstro. Essa história é Karatê Kid? Não. Mas é a perspectiva de Lawrence, que está em segundo plano no filme.

Sabotar intencionalmente os objetivos de outros personagens não costuma ser um hábito dos protagonistas, e sim de antagonistas ou rivais. Mas pense nas possibilidades de reviravoltas que um herói problemático possibilita. O desenvolvimento pode ser muito mais rico e, na minha opinião, mais interessante.

Agora tente fazer o mesmo com os filmes que você mais detesta. Convenhamos, é difícil mexer numa obra prima, mas, por outro lado, é muito fácil encontrar pontos negativos naquilo que a gente detesta. Principalmente quando são gritantes.

Vale o mesmo exercício: por que eu odeio esse filme? Do que ele precisaria para ser bom? Quais as piores cenas? Qual o problema com o protagonista? E se o vampiro não brilhasse? E se não dependesse só de jump scares para assustar?

Exige mais paciência, mas garanto que será muito mais fácil.

Mas lembre-se: o filme não se resume somente ao roteiro (quer dizer, tem alguns que sim). Preste atenção ao andamento dos diálogos e das ações, mas não ignore os aspectos “técnicos”, pois os mesmos também são elementos narrativos.

Na sua cena favorita, por exemplo, tocava alguma música? Ela intensificou o que você sentiu? A iluminação era mais escura, mais forte, alguma cor se destacava? Como era o enquadramento e o que aparecia nele? Esses elementos estavam presentes em cenas anteriores? E como eles se “casam” com as cenas seguintes?

E por quê?

São esses pontos observados que podem ser adaptados à sua história.

Esteja ciente do poder dos detalhes. Eles podem transformar completamente o sentido de uma cena, ou até de um filme inteiro.

Copie, reflita, altere e melhore. E assim o filme será totalmente seu.

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Como NÃO vender sua arte

Se tem um tipo de história que prende, encanta e inspira muitas pessoas por todo mundo, é a história de