Copie seus filmes favoritos sem plagiá-los

Você já sabe que cometer plágio é crime, certo? Se não, volta pra base.

Quando penso em meus filmes favoritos, gostaria de ter sido eu a escrevê-los, dirigi-los e ficar com todos os merecidíssimos prêmios. Mais do que apenas apreciar, sinto uma pontada de inveja destes autores pela inteligência, sagacidade e criatividade, e não é aquela inveja que te faz querer destruir uma pessoa para tomar o lugar dela, mas sim aquela que te inspira a tentar fazer algo tão bom quanto.

Como não tenho uma máquina do tempo para realizar tal façanha antes dos meus diretores favoritos, é melhor deixar esse devaneio de lado e começar a criar minhas próprias histórias. Que sejam originais, mas semelhantes às obras que admiro em termos de qualidade.

Há uma forma interessante de copiar seus filmes favoritos sem necessariamente plagiá-los. E já adianto que não é fácil nem rápido, talvez seja até mais difícil que escrever toda a sua obra sem nenhuma inspiração consciente, mas é bastante provável que você se sinta satisfeito/a com o resultado final.

Não precisa ter receio ou se sentir uma fraude por seguir esses passos. Stanley Kubrick e Quentin Tarantino já o fizeram. Com toda certeza, muitos outros diretores famosos e consagrados ainda o fazem.

Primeiramente, é preciso saber analisar um filme. Não necessariamente ser especialista em edição, direção de fotografia ou mixagem de som, mas tem que entender pelo menos o básico dos aspectos “técnicos”.

O que eu recomendo, antes de começar a análise, é escolher algum dos seus filmes favoritos e pensar: “por que eu gosto desse filme?”

Quais são as principais cenas que lhe vêm à mente? O que elas te fazem sentir? E por quê?

Assista ao filme uma vez, despretensiosamente, buscando somente reviver aquelas velhas emoções e o deleite que sentiu quando o fez pela primeira vez. Recorde-se de detalhes os quais você já tinha se esquecido, ou que haviam passado despercebidos.

E reassista uma segunda vez (não precisa ser imediatamente após terminar, claro), prestando atenção ao máximo de detalhes que conseguir, de modo que eles possam responder às suas perguntas. Tente perceber também as variações das suas emoções durante o filme, se há cenas em que você sente medo, aflição, euforia, tristeza etc.

Tudo isso foi planejado.

De quais personagens você gosta e por quê? Destaque os principais valores que te fazem admirá-los: coragem, sabedoria, força, humor… o que for. Analise como essas qualidades são trabalhadas durante o filme, quais são os momentos em que ele mais as coloca à prova, quais são os dilemas que enfrenta e qual a potência disso para o filme como um todo.

Parece difícil? É porque é difícil mesmo. Mas se você gosta do filme, será um esforço prazeroso.

Entender esses elementos te ajuda a aprender sobre a criação de um roteiro. Provocar emoções no seu público é consequência da qualidade das suas histórias, mas conduzi-las conscientemente é uma demonstração de habilidade. E isso você pode aprender com quem soube conduzir as suas.

Vamos usar um exemplo: Karatê Kid.

Se eu te disser que o desfecho é inspirado em clássicos do faroeste, você se surpreenderia?

Bom, quando o Sr. Miyagi vai até o Cobra Kai pedir trégua ao John Kreese, pelo menos até o dia do torneio, está propondo um duelo, no qual Daniel Larusso e Johnny Lawrence serão os dois caubóis que se enfrentarão numa luta limpa seguindo um conjunto de regras pré-determinadas.

No entanto, apesar do desfecho seguir o mesmo princípio, alguém poderia afirmar que Karatê Kid é plágio de algum filme de faroeste? Não. Nem no gênero ele se enquadra.

Quanto mais características humanas são trabalhadas durante a construção de um personagem, maiores são as possibilidades para se explorar as mesmas qualidades e defeitos em novas histórias.

O próprio Daniel Larusso, por exemplo, é um ser humano com vários defeitos: não somente por ser um completo desastre em karatê no começo do filme, mas também pela sua impaciência, seus ciúmes, sua pressa, ou até mesmo a tentação que sente em aprender a lutar do jeito agressivo como os alunos do Cobra Kai.

Ou seja, é um protótipo de personagem capaz de sustentar vários tipos de histórias diferentes. Caso Johnny Lawrence nunca tivesse cruzado seu caminho e chutado seu traseiro, aprender karatê não seria uma prioridade para Daniel e sua trajetória poderia seguir os rumos de um romance com altos e baixos, um drama familiar, ou quem sabe uma ficção científica.

Agora vamos inverter os papéis: um jovem apaixonado tenta reatar com a ex-namorada, mas vê ela se interessar por outro. Ele decide sabotar o rival à todo custo, é superado e descobre que o homem que mais admira é na verdade um monstro. Essa história é Karatê Kid? Não. Mas é a perspectiva de Lawrence, que está em segundo plano no filme.

Sabotar intencionalmente os objetivos de outros personagens não costuma ser um hábito dos protagonistas, e sim de antagonistas ou rivais. Mas pense nas possibilidades de reviravoltas que um herói problemático possibilita. O desenvolvimento pode ser muito mais rico e, na minha opinião, mais interessante.

Agora tente fazer o mesmo com os filmes que você mais detesta. Convenhamos, é difícil mexer numa obra prima, mas, por outro lado, é muito fácil encontrar pontos negativos naquilo que a gente detesta. Principalmente quando são gritantes.

Vale o mesmo exercício: por que eu odeio esse filme? Do que ele precisaria para ser bom? Quais as piores cenas? Qual o problema com o protagonista? E se o vampiro não brilhasse? E se não dependesse só de jump scares para assustar?

Exige mais paciência, mas garanto que será muito mais fácil.

Mas lembre-se: o filme não se resume somente ao roteiro (quer dizer, tem alguns que sim). Preste atenção ao andamento dos diálogos e das ações, mas não ignore os aspectos “técnicos”, pois os mesmos também são elementos narrativos.

Na sua cena favorita, por exemplo, tocava alguma música? Ela intensificou o que você sentiu? A iluminação era mais escura, mais forte, alguma cor se destacava? Como era o enquadramento e o que aparecia nele? Esses elementos estavam presentes em cenas anteriores? E como eles se “casam” com as cenas seguintes?

E por quê?

São esses pontos observados que podem ser adaptados à sua história.

Esteja ciente do poder dos detalhes. Eles podem transformar completamente o sentido de uma cena, ou até de um filme inteiro.

Copie, reflita, altere e melhore. E assim o filme será totalmente seu.

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