Sucesso de público anula a qualidade? Achamos que não

Alguns meses atrás, perguntei no meu Facebook se, na opinião das pessoas, existia diferença entre “é bom” e “eu gosto”, me referindo à qualquer expressão artística. Dezenas de pessoas se engajaram com a publicação, todas dizendo que existe sim diferença.

E os exemplos foram dos mais variados: cinema de vanguarda como qualidade, blockbuster como apreciação; literatura clássica como qualidade, romance como apreciação; música erudita como qualidade, pop como apreciação. Filmes de super heróis foram os mais citados e houve até comparação com comidas saudáveis e fast foods.

Enfim, muitas respostas interessantes.

Dentre os exemplos citados como “eu gosto”, todos eram conhecidíssimos sucessos de público. Mas mesmo assim não são considerados bons, o que nos leva a uma reflexão ainda mais interessante.

Algum tempo atrás falei sobre algumas desvantagens e desafios que os artistas eruditos enfrentam. Diz respeito à recepção do público: muitos respeitam, confirmam a autoridade e estudam sobre, mas poucos realmente apreciam, e isso se deve à maneira como o/a autor/a da obra em questão escolhe se comunicar.

Como havia escrito no mesmo texto: quanto maior o estudo teórico, quanto mais difícil a aplicação técnica e quanto mais detalhadamente forem planejados os recursos de linguagem, mais direcionada a obra estará aos especialistas. E como bem sabemos, a grande maioria não é especialista.

Por exemplo: Limite, clássico filme brasileiro de Mário Peixoto (1931), não possui diálogos e utiliza a iluminação e os enquadramentos como recursos de linguagem. No dia a dia, estamos acostumados com o uso da fala para nos comunicar, e qualquer mudança na iluminação significa somente que vai chover ou que você não pagou a conta de luz.

Limite, filme de Mário Peixoto

É difícil, causa estranhamento e exige esforço. Mas ninguém pode negar que o filme tem qualidade, pois a equipe que participou de sua realização precisou de muito conhecimento para comunicar uma ideia através das variações de luzes e sombras.

E não foram muitos os filmes daquela época que sobreviveram ao tempo e ao esquecimento: ainda nos dias de hoje, Limite é uma obra cultuada, respeitada e admirada pela grande maioria dos cineastas, professores e estudantes de cinema. Segue sendo estudada e debatida em círculos acadêmicos e nunca deixou de inspirar novos artistas.

Por outro lado, um filme como Os Vingadores, um dos maiores sucessos de bilheteria de todos os tempos, é considerado um filme sem qualidade. Isso porque a fotografia, iluminação, edição, figurino, cenografia, sonoplastia e até os efeitos especiais, cumprem papéis exclusivamente técnicos e não desempenham nenhuma função enquanto recurso de linguagem. O roteiro segue a narrativa clássica mais popular do mundo, com começo, meio e fim, centrado em uma jornada que leva os personagens principais à resolução de um problema.

Ou seja, o que manda é o roteiro, enquanto todo o resto precisa somente ser de tecnologia de última geração para garantir a maior qualidade visual e sonora possível.

Mesmo assim, milhões de pessoas choraram na sala de cinema. Riram, gritaram, aplaudiram e sentiram uma adrenalina indescritível. Uma experiência de imersão completa.

E ainda insistimos em dizer que não tem qualidade.

Será que a capacidade de comover, impactar e conquistar milhões de pessoas pelo mundo todo, não pode ser considerada um indicador de qualidade?

É aí que a reflexão começa a ganhar novas camadas: afinal, o que é qualidade?

Me veio à memória uma cena do filme Whiplash (Damien Chazelle, 2014), na qual ocorre aquele inesquecível diálogo entre o protagonista Andrew (Miles Teller) e seus familiares na mesa de jantar. Quando ele revela a ambição de se tornar o melhor baterista do mundo, um dos seus primos pergunta se isso não é relativo. Prontamente, Andrew diz um “não” seco e mau humorado, sem paciência para leigos.

Nessa parte do diálogo, o primo de Andrew confundiu qualidade e apreciação. Para quem é leigo em qualquer assunto relacionado às artes em geral, “melhor” significa “aquele que eu gosto mais”.

E aí você pode me perguntar: “mas e se o melhor baterista do mundo em questão não fosse apreciado por ninguém? Ainda seria o melhor?”

A resposta é sim. Porque continuarão existindo especialistas que o reconheçam como tal, gostem ou não.

Mas será que é possível haver qualquer artista no mundo que realmente lide bem com a ideia de receber um zero em apreciação?

Nada motiva mais uma pessoa a insistir em uma carreira artística se não a paixão – e se for a fama, essa pessoa definitivamente precisa se preocupar com a apreciação acima de tudo. E sempre que nos apaixonamos por uma obra de arte, queremos compartilhá-la com os outros, queremos que também amem aquilo que amamos e compreendam o que sentimos.

E a verdade é que, à medida em que a paixão esmaece ao longo do tempo – o que é normal –, segue-se em busca de outros objetivos, que podem ir desde o sucesso comercial a mais restrita admiração dos especialistas.

Ainda é bastante comum hoje em dia ouvir de muita gente que tudo o que é popular não presta. É verdade que as banalidades sobram na boca do povo, as coisas são assim desde que o mundo é mundo. Mas seguir defendendo a ideia de que o sucesso de público é, por regra, um extremo oposto de qualidade, é conversa pra boi dormir.

A verdade é que o entretenimento é tão importante para a saúde física e mental dos seres humanos quanto a bagagem intelectual que adquirimos com as obras de arte menos populares. A mente precisa descansar, o corpo precisa dançar e o riso precisa se soltar.

Em outras palavras, quanto mais pessoas são impactadas pelos sucessos de público classificados como sem qualidade, maior é o bem que seus respectivos autores trazem ao mundo.

E proporcionar alegria, bem estar e prazer para um grande número de pessoas, é sim uma arte. E o seu valor é imensurável.

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