VOCÊ PRECISA OUVIR O ÁLBUM ULTRALEVE, DE EDGAR!

Tem música que definitivamente não combina com volume baixo. Por isso, quando ouvir o novíssimo álbum Ultraleve, do novíssimo Edgar, recomendo botar a amplitude do som lá no talo para melhor proveito.

Recém saído do forno, Ultraleve é um paliativo para quem ficou traumatizado com a paulada que foi a mensagem de Ultrassom, de 2018. A proposta do Novíssimo é que o lançamento seja o volume dois de uma sequência que se inicia com o álbum anterior, então a gente pode esperar que daqui alguns anos venha outro trabalho ultrafoda do rapper paulista.

É tanta coisa pra falar sobre esse álbum tão incrível que eu tô até um pouco perdido. A vontade mesmo é escrever uma tese, analisando faixa por faixa, casando as letras com o contexto social e cultural do presente momento. Só não ia dar certo porque eu ficaria dançando o tempo inteiro ao invés de escrever. Porém, quando as futuras gerações perguntarem como foi viver durante as décadas de 2010/20, uma das minhas respostas será apresentar o trabalho do Edgar.

O ritmo é envolvente, gostoso mesmo de se ouvir, e utiliza efeitos que deixam o ouvinte à beira do transe. As letras chamam a atenção por vários fatores, mas o principal é a criatividade na hora de expor um problema social, político ou ambiental, característica presente nos maiores nomes que fazem do rap brasileiro um dos melhores do mundo.

A pauta é quente, a pauta é urgente. As canções abrem inúmeras possibilidades de interpretação e se valem de maneiras muito interessantes de abordar temas como diversidade, meio ambiente, alienação, idolatria à políticos, desigualdade, inclusão e violência. Uma leitura inteligente sobre um Brasil moribundo.

Assim como os destaques anteriores, Ultraleve é para ser ouvido por diferentes públicos. As faixas misturam vários estilos, sendo os principais o rap, o pop, o funk, a eletrônica e, percepção meio leiga da minha parte, arrisco dizer que percebi uma pegada de axé em algumas canções.

Outro grande trunfo do álbum é a participação da artista Elisapie na faixa A Procissão dos Clones, na qual canta em língua nativa da nação indígena esquimó inuit, e de Kunumi MC na Que a Natureza nos Conduza, na qual canta em guarani. A representatividade presente na parceria com ambos os artistas fortalece muito o discurso de Edgar.

As críticas sociais expressas através de rimas e metáforas cirúrgicas talvez tenham ainda mais força do que os livros de história, sociologia e filosofia, que explicarão em textos o momento atual. Ultraleve contempla com precisão os pensamentos de milhões de brasileiros que não sabem como expressá-los de maneira lúcida.

Em poucos versos, Edgar fala por mim o que eu não seria capaz de expressar em várias páginas. E fala muito mais pela parcela mais numerosa da população, que sente na pele as várias formas de violência de cada dia. Ouvir as palavras de Edgar é ouvir a voz de um país em luta e em luto. É também se juntar à luta.

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