Como conciliar seu processo criativo ao emprego formal?

Antes de começar, eu gostaria de dizer que não, eu não tenho todas as respostas e soluções para todas as condições sociais. Estou completamente ciente disso e, portanto, não ofereço uma transformação milagrosa na vida de quem precisa encarar mais de duas horas em trânsito todos os dias para ir e voltar do trabalho e ainda cuidar de filhos e resolver imprevistos.

Gostaria de ter uma solução para casos como estes, que sei que são comuns. Mas não tenho.

Portanto, este texto é para você, artista que trabalha em tempo integral numa profissão sem relação com sua arte, mas que ainda dispõe de algum tempo livre no dia a dia para se dedicar ao ofício.

1 – Se o que falta é tempo, você precisa aprender a administrá-lo

Não é estranho quando lemos a biografia de algum/a artista que hoje é ícone histórico e descobrimos que o/a mesmo/a era boêmio/a, abusava de substâncias ilícitas, precisava de abrigo e ajuda de amigos e parentes, mas quando produzia sua arte faturava uma fortuna.

Ainda que você tenha amigos e parentes capazes de sustentar e tolerar seus vícios e maus hábitos, esse é um estilo de vida que eu definitivamente não recomendo.

Mesmo com um bom conhecimento de marketing, estratégias de lançamento e uma boa rede de contatos, a verdade é que assumir as próprias rédeas da expansão de seu público e das vendas da sua arte trará resultados a longo prazo. E você precisa comer e pagar suas contas hoje.

Portanto, não é errado você ser paciente e trabalhar em um emprego formal fora da sua área, desde que entenda que aquilo é um sacrifício necessário e temporário.

Porém, quanto menos você souber administrar o seu tempo, mais meses – talvez anos – você precisará encarar aquele emprego que não é o seu sonho, e, consequentemente, mais distante se encontrará da carreira que almeja.

Muitos/as artistas, jovens principalmente, torcem o nariz sempre que escutam a palavra rotina e quase vomitam só de ouvir falar em disciplina. Acreditam em dormir tarde e acordar tarde, na espontaneidade, na pressão de fazer algo na última hora, e que um dia o problema da procrastinação se resolverá sozinho.

Você não tem que se cobrar demais. Você tem que se cobrar aquilo que é capaz de fazer.

Por isso, faça todo o planejamento do seu mês, da sua semana e do seu dia. No trabalho, você com toda certeza tem um horário para chegar, um para o intervalo e outro para sair. Comece por aí: tenha uma agenda e anote esse fluxo em todos os dias úteis do mês atual. Por exemplo: “08h – início do trabalho; 12h – intervalo; 18h – fim do expediente”.

Se você nunca parou pra observar em quanto tempo percorre o trajeto do trabalho até em casa, comece a observar, pois isso faz muita diferença. Imprevistos acontecem, por isso marque no cronômetro os minutos gastos durante toda a semana e faça uma média.

Quanto mais longo o trajeto, mais aconselhável é manter a cabeça ocupada: podcasts, leituras, vídeos, o que puder te ensinar ou informar enquanto você estiver no ônibus, trem ou metrô. Se você dirige, contente-se com conteúdos de áudio, óbvio.

Planeje o horário de acordar e de ir se deitar. Talvez você tenha que passar a dormir mais cedo, mas eu definitivamente não recomendo diminuir suas horas de sono. Uma noite mal dormida resultará em um dia mal aproveitado.

Inclua na agenda seus horários de descanso: mesmo sem se sentir cansado/a, faça uma pausa no mesmo horário todos os dias, se for possível. Se tiver celular com internet ao seu alcance, busque por “meditação guiada” no youtube, recarregue suas energias e retorne com mais disposição.

Tendo tudo isso anotado na agenda, dedique os espaços livres à criação. Talvez você pense que dessa maneira estará se acostumando à ideia de que a arte não é sua prioridade, mas não é bem assim. Primeiro porque esse tempo restrito de dedicação será maior do que num calendário caótico. E segundo porque é preciso fortalecer o hábito.

Fazendo uma comparação: correr durante 10 minutos todos os dias, de segunda á sexta, é melhor do que correr 50 minutos na segunda e ficar parado/a o resto da semana. No fim, serão 50 minutos de todo jeito, mas todo esse intervalo em inércia atrapalha o seu desempenho. Faz sentido?

A mente precisa desenvolver o hábito de criar. E se você começar a fazer isso amanhã, pode ter certeza de que terá muita dificuldade: sono, cansaço, falta de vontade e bloqueio criativo. Porém, depois de um mês seguindo uma rotina, suas habilidades começarão a fluir com mais facilidade.

“Ah, mas de nada adianta planejar tudo se a vida tem imprevistos”. Bom, eu duvido que você enfrentará imprevistos todos os dias.

“Ah, mas isso não funciona pra mim porque eu sou de peixes e -”. Vai dormir.

Não prometi uma solução fácil nem rápida, né.

2 – Se o problema é dinheiro, aprenda sobre finanças

Mas é claro que o problema é dinheiro, se não por qual motivo você estaria encarando um emprego infeliz? Sabia que você não é obrigado/a a pagar por pacotes de tarifas bancárias nem pelo seguro do seu cartão do crédito? E já observou que esses valores não param de subir? E que às vezes o banco desconta taxas tiradas de sabe-se lá que orifício, por serviços que você nunca contratou e sem te avisar? Sabia que você pode pedir a isenção e o estorno dessas taxas? Sabia que os rendimentos da popuança sempre estão abaixo da inflação e você acaba perdendo poder de compra?

Sabe porque tanta gente ganha uma fortuna num golpe de sorte e no ano seguinte volta pro zero? Ou o contrário, gente que perde tudo mas recupera o patrimônio? Trata-se de entender o dinheiro. Esqueça bordões como “só se vive uma vez”, “dinheiro é pra gastar”, “só ganha dinheiro quem explora os outros” e afins. Pessoas que não entendem absolutamente nada sobre economia são as que mais difundem esse anti-conhecimento que só vai te manter no exato lugar onde você se encontra.

Não significa que você precisa se matricular numa faculdade de economia – se quiser pode – ou que eu vá bancar o coach ou pedante nas próximas linhas. De modo algum. Mas vou te incentivar a ir atrás de conteúdos responsáveis sobre o assunto. Os canais da Nathália Arcuri e da Nath Finanças, por exemplo, são excelentes. Nem é preciso se tornar especialista em finanças ou ter ânsia por empreender para entender que muitos hábitos de consumo sabotam a realização dos seus sonhos.

Eu já fui um gastador convicto, não podia ter dinheiro na conta que fazia sumir. Hoje sei o quão importante é montar uma reserva de emergência e tento fazer um extra quando é possível.

Que fique claro que também não é objetivo deste texto promover a meritocracia. A verdade é que, se essa mudança de hábitos não transformar positivamente os seus resultados, de qualquer maneira você irá evoluir como pessoa por dar o melhor de si.

E isso inspira as pessoas.

3 – Não tenha vergonha de pedir ajuda

Esse tópico é muito importante. Acredito que a maior parte dos artistas de todo o Brasil poderão crescer na carreira quando pararem de se encarar como rivais ou concorrentes. Essa história de arte como palco pra disputa de ego precisa acabar. Ou melhor, nunca deveria ter existido.

A classe tem que ser mais unida.

No seu círculo de convivência, é fundamental que você se cerque de pessoas que te apoiam, que acreditem em você, que entendam seus objetivos, respeitem seus sonhos e te ajudem a crescer.

Por isso, parte do seu tempo também deve ser dedicada à colaborações, parcerias, ajudar os seus colegas com o que estiver ao seu alcance, e, se não houver muito o que possa fazer, deixe que te ajudem. Se estiver precisando de material, peça emprestado. Se estiver precisando de algum espaço, peça para usar. Peça feedbacks, compartilhamentos nas redes sociais, tire dúvidas.

Quem te ajudar também estará crescendo contigo.

E esteja disposto/a a retribuir, quando isso não exigir um grande sacrifício do seu tempo.

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