Arquivos Mensais: outubro 2021

Crítica e censura: cuidado para não confundir

Algumas semanas atrás, soltei essa no meu Facebook: “Se o Brasil fosse uma ditadura, seu livro seria censurado? E por quê?”

Todas as respostas foram sim e a maioria das justificativas foi bem interessante, como o fato de alguns dos escritores que tenho na rede social escreverem sobre desigualdade social, luta de classes etc, outros pelo conteúdo erótico de suas histórias.

Até aí tudo bem. Sabemos que quem tenta censurar a arte alheia costuma se ofender com extrema facilidade – inclusive, os princípios dessa galera são tão frágeis que parecem feitos de maizena.

Porém, achei um tanto preocupante quando começaram a surgir alguns comentários confundindo censura e crítica, e isso é muito perigoso. Citaram como exemplo o Nelson Rodrigues, que com toda certeza seria “cancelado” hoje em dia, falaram sobre certos conteúdos e gêneros que são menos aceitos pelo público e pela crítica… etc.

Por que isso me incomodou? Porque as diferenças entre censura e crítica sempre foram tão claras e óbvias que chega a ser desnecessário explicar os dois conceitos. Mas para não restar mais nenhuma dúvida, o farei mesmo assim.

Censurar: proibir a veiculação de alguma obra ou discurso, sujeitando o/a autor/a da mesma a alguma penalização.

Criticar: discorrer sobre as características positivas e ou negativas de uma obra ou discurso, opinando sobre sua qualidade, relevância e quaisquer outros pontos que julgar interessantes de se discutir.

Claro que eu apresentei os conceitos de maneira bastante vaga, mas o mais essencial está bem claro: focinho de porco não é tomada e crítica não é censura. A crítica, por mais negativa e cruel que possa ser, não impede de qualquer maneira a obra ou discurso de ser vista, lida ou ouvida pelo público.

O direito à veiculação da mesma continua garantido pela lei, assim como o direito dos críticos de opinarem e do público não apreciar. A regra é clara: carrinho por trás é cartão vermelho e toda obra ou discurso está sujeita à crítica. A única maneira de escapar da mesma é nunca expondo nada, e eu acho que não é isso o que você quer.

A crítica pode ensinar qualquer artista sobre as preferências do público, sobre a maneira de apresentar a obra, sobre como melhorar seu trabalho, enfim, dá pra tirar algum aprendizado – claro, desde que o crítico em questão não seja um amador que só sabe apontar e chamar de lixo, afinal você não tem que levar a sério a opinião de um amargurado.

A censura, por outro lado, é algo que nunca trará nenhum bem para a humanidade e por isso ela não deveria existir em nenhum lugar do mundo.

Por isso, se o seu trabalho não agradou, por qualquer que seja o motivo, não é justo você se dizer alvo de censura, porque isso não é verdade. Pode ser que uma editora cancele seu contrato se o seu livro não foi bem recebido, afinal os serviços são caros de se manter e a conta precisa fechar.

E isso não é censura, é só capitalismo mesmo.

Você ainda tem a opção de bancar a impressão através de uma prestadora de serviços e vender por conta própria, ou lançar gratuitamente no formato e-book. Somente seria censura se alguém te proibisse de fazê-lo.

Isso vale não somente para escritores, mas para qualquer artista: a carreira é repleta de obstáculos e é preciso enfrentá-los de cabeça erguida. Persista e siga aprendendo, pois você é completamente livre para se expressar.

Obs: Acredito não ser necessário escrever um outro texto explicando a diferença entre liberdade de expressão e discurso de ódio. Certo?

Veja mais:

Feito é melhor do que perfeito?

Definitivamente é melhor do que não feito. Estude e pratique incansavelmente para que você aperfeiçoe suas habilidades e amplie seu

Os mais expressivos festivais do cinema brasileiro

Nas últimas décadas, temos acompanhado um crescimento significativo e muito importante de eventos culturais, promovidos com a finalidade de exibir e premiar novas obras e autores do cinema brasileiro. Mesmo enfrentando inúmeros obstáculos, podemos observar que artistas têm lutado com cada vez mais persistência, união e busca por representatividade para profissionalizar, solidificar e tornar o ofício inclusivo.

Festivais e mostras regionais, universitárias e com pautas específicas têm ganhado destaque entre iniciantes e estudantes, que se inspiram e buscam expandir o legado dos eventos mais conceituados da história da cultura brasileira.

Na lista abaixo, citamos as premiações de maior renome do cinema brasileiro, de acordo com a maioria dos críticos, acadêmicos e profissionais da área. Levamos em consideração não somente a aprovação de especialistas, como também a visibilidade dos festivais e a influência que os mesmos exercem sobre as novas gerações.

Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

É quase unanimidade para muitos dos profissionais do cinema e audiovisual brasileiro que o Festival de Brasília é o mais expressivo e prestigiado do Brasil e, mesmo para quem discorda, essa afirmação não é nenhum absurdo. O evento, inicialmente chamado de Semana do Cinema Brasileiro, existe desde 1965 por iniciativa de Paulo Emílio Salles Gomes, na época professor de cinema na Universidade de Brasília e autor de diversos livros, e que, mais de quarenta anos após seu falecimento, ainda é considerado uma das maiores autoridades em assunto de audiovisual brasileiro da história do país.

Muitos filmes conhecidos, consagrados e respeitados como clássicos da cinematografia nacional foram premiados com o Troféu Candango ao longo da existência do festival, como A Hora e a Vez de Augusto Matraga (Roberto Santos, 1965), O Bandido da Luz Vermelha (Rogério Sganzerla, 1968), Iracema – Uma Transa Amazônica (Jorge Bodanzky, 1980) e A Hora da Estrela (Suzana Amaral, 1985).

Perfil no instagram: @festbrasilia

Festival de Cinema de Gramado

Atravessando momentos de crises, instabilidades e até o período mais rigoroso da censura militar, o Festival de Gramado está na ativa desde 1973, atraindo a atenção e interesse tanto dos espectadores e profissionais brasileiros quanto estrangeiros devido às exibições e premiações em categorias internacionais – com ênfase em outros países latinoamericanos. Os setores de arte e cultura são bastante movimentados na cidade de Gramado (RS) e o festival de cinema é um dos principais e mais atraentes eventos.

Entre os premiados, destacam-se: Toda Nudez Será Castigada (Arnaldo Jabor, 1972), O Amuleto de Ogum (Nelson Pereira dos Santos, 1974) e Pra Frente Brasil (Roberto Farias, 1982).

Perfil no instagram: @festivaldecinemadegramado

Site: http://festivaldegramado.net

Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Criada em 1977, a Mostra de São Paulo conta com grandes patrocínios como Petrobras, Itaú, SESC, BNDES, CPFL e Spcine. Em termos de exibição internacional, é o festival mais abrangente do Brasil, englobando uma grande diversidade de obras oriundas de todos os continentes. Uma vez que o evento não possui fins lucrativos, seus organizadores têm o compromisso de expandir o conhecimento do público brasileiro sobre filmes não produzidos nos Estados Unidos, por isso já reuniu destaques mundiais como Pedro Almodóvar, Abbas Kiarostami e Wim Wenders.

Perfil no Instagram: @mostrasp

Site: https://44.mostra.org

Festival Internacional do Rio de Janeiro

Nascido da fusão entre o Rio Cine Festival (1984) e a Mostra Banco Nacional de Cinema (1988), o Festival do Rio foi fundado em 1999 e tem sido um dos principais eventos culturais do país, abrangendo também a exibição de filmes estrangeiros originários de vários países.

Os principais premiados com o Troféu Redentor desde 2002 são: Narradores de Javé (Eliane Caffé, 2003), O Céu de Suely (Karim Aïnouz, 2006) e O Som ao Redor (Kleber Mendonça Filho, 2012).

Perfil no Instagram: @festivaldorio

Site: http://www.festivaldorio.com.br

É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários

Mesmo que os festivais anteriores incluam documentários nas exibições e disputas por prêmios, o É Tudo Verdade se dedica exclusivamente à categoria em questão. Realizado nas cidades São Paulo e Rio de Janeiro desde 1996, o festival é uma das principais referências do cinema documental em toda a América Latina, premiando tanto brasileiros quanto estrangeiros.

Já foram contemplados pelo júri oficial título como: Nós Que Aqui Estamos Por Vós Esperamos (Marcelo Masagão, 1999), Notícias de Uma Guerra Particular (João Moreira Salles e Katia Lund, 2000) e A Alma do Osso (Cao Guimarães, 2004).

Perfil no Instagram: @etudoverdadeoficial

Site: http://etudoverdade.com.br/br/home

Veja também:

Feito é melhor do que perfeito?

Definitivamente é melhor do que não feito. Estude e pratique incansavelmente para que você aperfeiçoe suas habilidades e amplie seu

Você sabe como funciona a musicoterapia?

Como o nome já indica, a musicoterapia é uma das formas de terapia clínica utilizadas em diversos tratamentos que abrangem as mais variadas etapas da vida humana, do nascimento até a velhice. Através da música, o profissional musicoterapeuta é capaz de reabilitar funções motoras, mentais e trabalhar funcionalidades necessárias.

É também uma demonstração de como a arte é o que há de mais valioso na humanidade e pode transformar a vida de qualquer pessoa de inúmeras maneiras.

Embora encarada com ceticismo, a arte da utilização da música como tratamento vem sendo registrada há milênios, e, conforme a ciência e a tecnologia se modernizam, as pesquisas avançam e um número cada vez maior de profissionais especializados se dedicam ao ofício.

E o retorno é positivo àqueles que são submetidos ao tratamento: bebês prematuros apresentam melhorias no ato de sucção, crianças com autismo progridem no aspecto social e idosos com alzheimer conseguem restabelecer partes significativas das funcionalidades prejudicadas pela doença.

É claro que cada caso varia de acordo com a gravidade da condição, a qualidade do profissional, tempo de tratamento etc. Vários fatores precisam ser levados em consideração, porém, mesmo que o progresso não atenda às expectativas de todos os indivíduos, a experiência é positiva.

Mas vamos com calma, pois ainda não significa que a gente pode começar a trocar remédios e outras formas de tratamento convencional pela musicoterapia. Por maiores que sejam os benefícios, ainda é necessário muito estudo não somente sobre a música, como também sobre a neurociência como um todo, a psiquiatria, além de um maior investimento no desenvolvimento científico e tecnológico.

E mesmo com muito chão pela frente, vale a pena conhecer. Ainda que você não tenha nenhuma condição, deficiência ou doença tratável com musicoterapia, ela pode proporcionar uma melhoria significativa na qualidade de vida no geral, por exemplo: diminuir o estresse, prevenir ansiedade e depressão, melhorar a concentração e trabalhar a memória, ou simplesmente facilitar o processo de autoconhecimento, e esses são fatores fundamentais para o desempenho das nossas tarefas do dia a dia, seja na rotina de trabalho, estudos, ou qualquer atividade na qual estejamos envolvidos.

As sessões podem ocorrer de diferentes maneiras: individual ou em grupo, tocando instrumentos, cantando ou apenas ouvindo, de acordo com a preferência de cada pessoa tanto na escolha da performance quanto do ritmo, levando em consideração que reações positivas ou negativas à uma música também se manifestam de maneira individual.

Em 2018, a musicoterapeuta de Santarém-PA Nathalya Avelino deu uma palestra para a TEDx Talks contando, a partir de um exemplo real, como o tratamento transformou a vida de um amigo que teve suas funções motoras comprometidas por um acidente. Achamos que seria legal compartilhar aqui essa história com vocês.

A arte superou inúmeras crises, pandemias, guerras e vai continuar sobrevivendo, porque ela é um superpoder e a humanidade precisa dela.

Veja também:

Feito é melhor do que perfeito?

Definitivamente é melhor do que não feito. Estude e pratique incansavelmente para que você aperfeiçoe suas habilidades e amplie seu

NOPORN É INCRÍVEL E VOCÊ PRECISA OUVIR!

Não vou te aconselhar a ouvir chapado/a, eu fiz Proerd. Maaaas… você faz o que quiser da vida.

O álbum Sim, lançado em 2021, foi o meu primeiro contato com o duo Noporn, que eu até então não tinha ouvido falar. Precisei parar pra prestar mais atenção, pois aquele estilo ainda era pra mim uma novidade. O timbre levemente robótico, o canto mais declamado que melódico, a frieza nas palavras e o ritmo eletrônico. Uma combinação inusitada que surpreende aos ouvintes menos familiarizados.

Mas principalmente o deboche.

A ironia, o cinismo e o sarcasmo são elementos recorrentes na composição das letras, escritas com sagacidade de modo a alfinetar com precisão cirúrgica. Porém, as músicas não falam somente sobre determinados comportamentos alheios, como também ironizam certas atitudes, pensamentos e sentimentos particulares.

Sim remete ao amor, ao desejo sexual, à solidão, aos relacionamentos vazios, entre outras coisas não muito legais de se ouvir durante esse período de eterno isolamento. Outros sites e canais afirmaram que o álbum se inspira na liberdade das noites paulistanas e seus clubes, os quais não conheço bem, porém provoca gatilhos em minha ânsia por recuperar a liberdade e desfrutar do que ainda me resta de juventude.

O Noporn está na ativa desde 2006, quando lançou o álbum homônimo, e encarou um hiato de dez anos até lançar o Boca em 2016. De lá pra cá, a proposta se manteve e suas variações consistem em detalhes, porém a identidade artística se solidifica e fortalece mais a cada música.

O reconhecimento é imediato. Você pode ter escutado somente uma música anos atrás, apenas uma única vez. Quando escutar novamente, não terá dificuldade em identificar: “eu já ouvi, isso é Noporn”. Alguns talvez compreendam como um fator negativo e os acusarão de artistas limitados, mas eu discordo. Não é nada fácil se tornar a principal referência de uma linguagem tão criativa, ainda mais em um país com tanta diversidade musical que segue se reinventando e bebendo de inúmeras fontes.

Ouvir a discografia do Noporn é como ficar em uma festa até o final e viver todas as suas etapas: chegamos tímidos, mas interessados e curiosos, até que nos deixamos entregar e aceitamos uma bebida, que em consequência desperta alguns tantos desejos da carne. Os expressamos dançando, e, a cada passo, nos preocupamos menos em entender o que está acontecendo.

Até que uma frase estonteia a consciência como uma marretada, e de repente a festa já não parece mais tão divertida assim. Estão nos dizendo uma verdade da qual queremos fugir. Poxa, é exatamente assim que eu me sinto. Parece até que estão cantando sobre a minha vida. Que vontade de ligar pra ex! Melhor não.

A embriaguez começa a abandonar meu corpo e dá lugar à ressaca.

Eu só queria me divertir, mas doeu.

E isso foi muito antes da Tove Lo lançar o icônico clipe de Habits. Siga a dica, aceite o convite do Noporn e tenha uma festa em seu quarto. Quantas vezes quiser.

Ver também: