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NOPORN É INCRÍVEL E VOCÊ PRECISA OUVIR!

Não vou te aconselhar a ouvir chapado/a, eu fiz Proerd. Maaaas… você faz o que quiser da vida.

O álbum Sim, lançado em 2021, foi o meu primeiro contato com o duo Noporn, que eu até então não tinha ouvido falar. Precisei parar pra prestar mais atenção, pois aquele estilo ainda era pra mim uma novidade. O timbre levemente robótico, o canto mais declamado que melódico, a frieza nas palavras e o ritmo eletrônico. Uma combinação inusitada que surpreende aos ouvintes menos familiarizados.

Mas principalmente o deboche.

A ironia, o cinismo e o sarcasmo são elementos recorrentes na composição das letras, escritas com sagacidade de modo a alfinetar com precisão cirúrgica. Porém, as músicas não falam somente sobre determinados comportamentos alheios, como também ironizam certas atitudes, pensamentos e sentimentos particulares.

Sim remete ao amor, ao desejo sexual, à solidão, aos relacionamentos vazios, entre outras coisas não muito legais de se ouvir durante esse período de eterno isolamento. Outros sites e canais afirmaram que o álbum se inspira na liberdade das noites paulistanas e seus clubes, os quais não conheço bem, porém provoca gatilhos em minha ânsia por recuperar a liberdade e desfrutar do que ainda me resta de juventude.

O Noporn está na ativa desde 2006, quando lançou o álbum homônimo, e encarou um hiato de dez anos até lançar o Boca em 2016. De lá pra cá, a proposta se manteve e suas variações consistem em detalhes, porém a identidade artística se solidifica e fortalece mais a cada música.

O reconhecimento é imediato. Você pode ter escutado somente uma música anos atrás, apenas uma única vez. Quando escutar novamente, não terá dificuldade em identificar: “eu já ouvi, isso é Noporn”. Alguns talvez compreendam como um fator negativo e os acusarão de artistas limitados, mas eu discordo. Não é nada fácil se tornar a principal referência de uma linguagem tão criativa, ainda mais em um país com tanta diversidade musical que segue se reinventando e bebendo de inúmeras fontes.

Ouvir a discografia do Noporn é como ficar em uma festa até o final e viver todas as suas etapas: chegamos tímidos, mas interessados e curiosos, até que nos deixamos entregar e aceitamos uma bebida, que em consequência desperta alguns tantos desejos da carne. Os expressamos dançando, e, a cada passo, nos preocupamos menos em entender o que está acontecendo.

Até que uma frase estonteia a consciência como uma marretada, e de repente a festa já não parece mais tão divertida assim. Estão nos dizendo uma verdade da qual queremos fugir. Poxa, é exatamente assim que eu me sinto. Parece até que estão cantando sobre a minha vida. Que vontade de ligar pra ex! Melhor não.

A embriaguez começa a abandonar meu corpo e dá lugar à ressaca.

Eu só queria me divertir, mas doeu.

E isso foi muito antes da Tove Lo lançar o icônico clipe de Habits. Siga a dica, aceite o convite do Noporn e tenha uma festa em seu quarto. Quantas vezes quiser.

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VOCÊ PRECISA OUVIR O ÁLBUM ULTRALEVE, DE EDGAR!

Tem música que definitivamente não combina com volume baixo. Por isso, quando ouvir o novíssimo álbum Ultraleve, do novíssimo Edgar, recomendo botar a amplitude do som lá no talo para melhor proveito.

Recém saído do forno, Ultraleve é um paliativo para quem ficou traumatizado com a paulada que foi a mensagem de Ultrassom, de 2018. A proposta do Novíssimo é que o lançamento seja o volume dois de uma sequência que se inicia com o álbum anterior, então a gente pode esperar que daqui alguns anos venha outro trabalho ultrafoda do rapper paulista.

É tanta coisa pra falar sobre esse álbum tão incrível que eu tô até um pouco perdido. A vontade mesmo é escrever uma tese, analisando faixa por faixa, casando as letras com o contexto social e cultural do presente momento. Só não ia dar certo porque eu ficaria dançando o tempo inteiro ao invés de escrever. Porém, quando as futuras gerações perguntarem como foi viver durante as décadas de 2010/20, uma das minhas respostas será apresentar o trabalho do Edgar.

O ritmo é envolvente, gostoso mesmo de se ouvir, e utiliza efeitos que deixam o ouvinte à beira do transe. As letras chamam a atenção por vários fatores, mas o principal é a criatividade na hora de expor um problema social, político ou ambiental, característica presente nos maiores nomes que fazem do rap brasileiro um dos melhores do mundo.

A pauta é quente, a pauta é urgente. As canções abrem inúmeras possibilidades de interpretação e se valem de maneiras muito interessantes de abordar temas como diversidade, meio ambiente, alienação, idolatria à políticos, desigualdade, inclusão e violência. Uma leitura inteligente sobre um Brasil moribundo.

Assim como os destaques anteriores, Ultraleve é para ser ouvido por diferentes públicos. As faixas misturam vários estilos, sendo os principais o rap, o pop, o funk, a eletrônica e, percepção meio leiga da minha parte, arrisco dizer que percebi uma pegada de axé em algumas canções.

Outro grande trunfo do álbum é a participação da artista Elisapie na faixa A Procissão dos Clones, na qual canta em língua nativa da nação indígena esquimó inuit, e de Kunumi MC na Que a Natureza nos Conduza, na qual canta em guarani. A representatividade presente na parceria com ambos os artistas fortalece muito o discurso de Edgar.

As críticas sociais expressas através de rimas e metáforas cirúrgicas talvez tenham ainda mais força do que os livros de história, sociologia e filosofia, que explicarão em textos o momento atual. Ultraleve contempla com precisão os pensamentos de milhões de brasileiros que não sabem como expressá-los de maneira lúcida.

Em poucos versos, Edgar fala por mim o que eu não seria capaz de expressar em várias páginas. E fala muito mais pela parcela mais numerosa da população, que sente na pele as várias formas de violência de cada dia. Ouvir as palavras de Edgar é ouvir a voz de um país em luta e em luto. É também se juntar à luta.

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Angelita Cardoso: a artista plástica de São Paulo que você precisa conhecer

A obra autoral mistura técnicas de pintura, gravura, aquarela e desenho. Nas imagens a seguir, Angelita Cardoso (São Paulo/SP) expressa uma identidade artística autêntica e criativa, que traduz uma proposta intimista marcada pelo uso de cores que remetem à uma multiplicidade de sentimentos.



Artista plástica de talento incontestável, Angelita Cardoso percorreu um caminho expressivo através de exposições pelo Brasil, Portugal, Espanha, França e Alemanha por encantar amantes da arte com o conjunto de sua obra. Aberto à inúmeras possibilidades de leitura e interpretação, seu trabalho representa, sobretudo, retratos e corpos abstratos em suas formas, preenchidos por cores e sombras atípicas que se distinguem e comunicam ideias e sentimentos de intimidade.



Desde seu cadastro no catálogo do Arte Local, quando tive meu primeiro contato com a arte de Angelita, me impressionaram a força e o impacto das imagens. Vejo nos traços e nos contrastes os elementos de maior destaque e, consequentemente, que mais me chamaram a atenção por reforçar a proposta visual e tornar seu trabalho reconhecível em qualquer exposição, de modo a fortalecer sua marca autoral.

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O álbum Olho de Vidro, da JADSA, é IMPACTANTE e você PRECISA ouvir!

O que foi isso que eu acabei de ouvir? Parece MPB, tem umas guitarras e é meio psicodélico. Mas será que não é Soul? Tem uma pegada de jazz também, talvez um blues. Não sei, só sei que soa familiar, mas não me lembro de já ter ouvido algo parecido. E é muito bom.

Lançado pela Balaclava Records, Olho de Vidro é o álbum de estréia da cantora Jadsa, após os EPs Godê (2015, em parceria com Tropical Selvagem) e TAXIDERMIA vol. I (2020, em parceria com João Milet Meirelles). Sem dúvida alguma, o melhor lançamento de 2021 até o momento.

Segundo a breve biografia da cantora de Salvador-BA (que também é compositora, guitarrista e produtora musical) apresentada no Spotify, suas principais influências nacionais são Jards Macalé, Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé, além de se inspirar nos estadunidenses Jimi Hendrix, Janis Joplin, Alabama Shakes e Khruangbin.

Essas informações ajudam a elucidar uma certa familiaridade que percebemos ainda na introdução. Jadsa soube criar algo completamente novo através de referências muito bem estabelecidas e estudadas, que encontram vida em sua voz marcante, criatividade na composição das letras e jogos rítmicos, que brincam com pausas e variações de tons.

E sabe de uma coisa? Ela não está abaixo de nenhuma de suas influências. Se estivéssemos nos anos 60, Jadsa estaria dividindo o palco com os maiores nomes do Woodstock.

Propomos um desafio para vocês, leitores e leitoras. É muito provável que vocês tenham amigos e familiares que enchem a boca para falar que música brasileira não presta. Faça-os ouvir Olho de Vidro do começo ao fim e cale-os para sempre. Aprecie suas expressões boquiabertas quando cair a ficha de que estão ouvindo um fenômeno que, com toda a certeza, entrará para a história da cultura nacional.

Se não mudarem de ideia, desistam. É porque já morreram por dentro.

Escutei Jadsa pela primeira vez em apresentação na TV Cultura, e imediatamente soube que seria ela o próximo destaque no Arte Local. Não poderia deixar de compartilhar esse som com vocês e acredito que o mundo todo precisa conhecê-la. O site ainda não tem esse alcance, mas estou fazendo a minha parte.

O álbum é como uma jornada que nos convida a explorar a fundo nossos próprios sentimentos. As canções conduzem a diferentes sensações, semelhante a um efeito hipnótico, que fazem com que o ouvinte experimente uma imersão quase completa em momentos que vão da calmaria à euforia. Não serve como mero som ambiente pra ficar tocando no elevador, você precisa parar pra ouvir e se entregar à experiência.

Não é qualquer lançamento morno nem tímido. É intenso. Ousado. Brabo. Pedrada. Classudo.

Com duração de 46 minutos, Olho de Vidro conta com 14 faixas sem economizar em criatividade e personalidade. O som tem pegada e convence o ouvinte dos sentimentos que a artista expressa, entregando um repertório de poesia vocalizada e genialmente instrumentalizada.

A maior riqueza do álbum consiste em valer-se do que há de melhor em cada estilo. Daí a dificuldade em tentar identificar um gênero em particular no início. Parece que ainda somos muito apegados à ideia de que certos ritmos não se misturam, e que portanto devemos escolher somente um e vestir sua camisa.

Mas Jadsa é muito bem sucedida em provar que essas fusões podem entregar resultados incríveis, e Olho de Vidro é uma aula que deve inspirar todos aqueles que pretendem evoluir enquanto artistas.

Se você é daquelas pessoas que gostariam de ter nascido em outra época para acompanhar o começo da carreira de algum ídolo e marcado presença nos melhores shows, as gerações futuras sentirão inveja é de você que teve o privilégio de testemunhar o primeiro lançamento da Jadsa.

E quero ver alguém ter a coragem de me olhar nos olhos e dizer que estou exagerando.

Procurei onde comprar um CD físico – pra pedir um autografado, lógico – e infelizmente não achei. Mas não tem jeito, esse formato ainda vai acabar caindo em desuso mesmo. Por isso, corre lá no Spotify, no Deezer, Amazon Music, YouTube, porque tá lá de bandeja pra você curtir.

Agora vou contar uma história aqui meio em off: alguns anos atrás, minha madrinha viajou pra Itália e me contou sobre um restaurante com bastante fluxo turístico, onde tinha um cantor que parecia conhecer pelo menos uma música de cada país. A galera falava de onde era, ele tocava uma música de lá. Brabo mesmo. Lá foi minha madrinha inventar de falar que era brasileira, e adivinha? O cara começou: “Nossa, nossa, assim você me mata”. Ela não sabia onde enfiar a cara.

Imagina ela voltando nesse lugar daqui uns anos e encontrando o mesmo cantor. E se ao invés de repetir o hit mais constrangedor do Brasil, ele simplesmente fechasse os olhos, respirasse fundo e dissesse pra banda: “Nossa hora chegou. Vamos tocar aquela.” “Aquela?”, “Sim, aquela. Caprichem”. E de repente começam a tocar Sem Edição, da Jadsa. Os outros turistas vão ficar de queixo caído, aplaudir de pé e comentarem entre si: música brasileira é mesmo boa, hein!

Tô sonhando? Tô não! Tira esse dedo do nariz e usa pra compartilhar, manda o som pra todos os seus amigos, pra sua família, ouve sem fone no ônibus, põe como toque no seu celular, canta alto na fila do banco.

Façam esse álbum viralizar! O mundo tá precisando de boas novidades.

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QUEM É SURYA? E POR QUE VOCÊ PRECISA CONHECÊ-LA?

Canta, toca, compõe, atua, escreve, desenha e pinta. É graduada em Cinema e conseguiu provar que é sim possível desenvolver várias habilidades e fazer tudo bem feito.

A paranaense e multitalentosa Surya (@surya_music) estreou oficialmente no mundo da música com o EP Moletom (2018), que nos apresenta cinco canções em dezesseis minutos, nos quais são mesclados diferentes estilos que entregam ao ouvinte uma obra de poesia muito bem ritmada e voz marcante. Mais do que um cartão de visita, Moletom é o prelúdio de uma carreira brilhante que veio para ficar e conquistar o coração dos brasileiros.

E a repercussão não poderia ter sido outra: arte feita com paixão tem a magia de contagiar o público, e os curitibanos receberam Moletom com carinho e aprovação, movimentando a agenda da cantora com apresentações em festivais, entrevistas para jornais, revistas, programas de rádio e canais do Youtube.

Moletom (Surya, 2018)

Foi em 2020 que o Brasil recebeu um baita presente: após cinco singles (Casa de Flores, Dancing Spell, Goodbye, Stop! I’m Gonna Cut My Hair, e Soul Whispers), foi lançado o álbum Amor, L’amour, Love, em dois volumes que totalizam dezoito canções em uma hora e dois minutos, além de contar com mais dois singles de 2018 (Lígia e Vortex).

Com letras em português, inglês e francês, o álbum tem a variação entre estilos como um dos pontos mais fortes: samba raiz, música popular brasileira, jazz e blues, todos trabalhados sobre excelentes referências, algumas brasileiras e outras estrangeiras, mas sem deixar faltar com a autenticidade. A primeira canção já é suficiente para que você se dê conta de que está diante de algo gigante, testemunhando o nascimento de um ícone da música nacional.

Em entrevistas, Surya enfatiza que o amor a que se refere nas canções não se limita somente ao romântico, e o significado de suas letras alcançam uma abrangência muito mais ampla: ela canta sobre o amor por si mesmo/a, pela vida, pela mãe, pelo mundo… Assim como eu, ouvintes se sentirão compreendidos/as na medida em que querem e precisam. Coisas que só a arte é capaz de fazer.

E sim, você pode ouvir o álbum pelo spotify, pelo site e comprar o CD na loja da cantora. Não importa se você não gosta de samba, você vai gostar do álbum. Não importa se você não gosta de música popular brasileira, você vai gostar do álbum. Não importa se você não gosta de jazz, você vai gostar do álbum.

Amor, L’amour, Love (Surya, 2020)

Também em 2020, após receber prêmios em vários festivais, o longa metragem Alice Júnior (dirigido por Gil Baroni) foi adicionado ao catálogo da Netflix, tornando mais acessível à milhões de brasileiros seu trabalho audiovisual de maior visibilidade como atriz. O filme conta a história da estudante Alice (interpretada por Anne Mota), que enfrenta os preconceitos e desafios de adaptação à uma escola conservadora. Surya interpreta a carismática Taísa, amiga de Alice, que também não se sente à vontade com as regras e fundamentalismo religioso.

Por vários motivos que não vou contar – eu não dou spoiler, pode ir lá assistir -, a participação de Taísa é marcante e essencial para o desenvolvimento e desfecho da história, e a escolha de Surya para o papel foi acertada devido à sua entrega, boa leitura da personagem, boa atuação e entrosamento com o elenco. Também é importante destacar o valor de Alice Júnior para a visibilidade e representatividade trans no cinema nacional.

Anne Mota, Surya Amitrano e Matheus Moura, no filme Alice Júnior

Em um dos raros dias de sorte que tenho na vida, comprei o último volume do livro Se Deixar Eu Viro Poesia, publicação independente da Surya com 56 páginas e um lindo trabalho de capa e ilustrações de Stephani Heuczuk. Fiz a compra pelo site e pedi para receber o livro e o CD autografados, e assim os recebi. Segundo a autora, o livro é dividido em cinco capítulos: granizo, chuva, vento, sol e anunciação.

“’(…) os poemas passeiam pela vida e seus estágios: imaginação, realidade, amor, falta de amor, medo, entrega e coragem. Com ilustrações e capa de Stephani Heuczuk, este pequeno livro é um convite ao refletir, mas, principalmente, ao sentir.”

Até o momento em que escrevo esse texto, o livro físico está indisponível em estoque, mas você pode comprá-lo em versão digital. Porém, acredito que se a demanda for muita, pode rolar uma nova edição. Vai depender de vocês pedirem por uma. Fica a dica.

Se Deixar eu Viro Poesia, livro de Surya Amitrano

Agora lhes convido a conhecer o portfólio (@surya_illustrations), onde frequentemente ela posta suas pinturas, desenhos e ilustrações; e também a página de textos e crônicas em seu blog, onde podemos conhecer um pouco melhor do seu talento como escritora.

Tá na mão: mais de vinte músicas de qualidade pra você adicionar na sua playlist e escutar mais de mil vezes, um filme pra assistir com a crush, um livro pra te inspirar e fazer refletir sobre a vida de maneira poética, várias opções de presente pra fazer aquela moral com a sogra. A única coisa que te peço é pra compartilhar. Vamos fortalecer o trabalho de uma artista incrível, fazer chegar à todas as regiões do país – e fora também, manda o link pro seu amigo gringo – e ajudar a crescer a visibilidade dos próximos que serão apresentados aqui no site.